sábado, 18 de maio de 2013

A Alma Pura



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           A alma pura
                             contos

                                                Eliane Colchete




          Conto I
           

           Essas memórias não são de outro tempo, mas estão misturadas com uma intenção de um agora difícil de definir como é indefinível a relação da gente com algo desconhecido que se abriu de repente como um anômalo saltar de linhas, a mudança de trajeto da escritura, que vai ser da escritura, mas por que pensar na escritura, serão suas veias que estarão ao alcance do DB (débil mental) qualquer treinado apenas na troca de letras de alfabeto por signos numéricos.

               Antigamente não se dizia DB, eles eram chamados de "hakers". Quando os circuitos eram somente externos. Pesquisei sobre isso numa fonte de "registros secretos". Mas DB ou "haker", tudo o que estão fazendo: invadindo os circuitos pessoais para se apossar dos controles pessoais. Pensando nisso a gente entende que DB é um nome mais apropriado. "Tudo", é tudo mesmo. Eles não se ocupam de nada mais. E como eles arranjam dinheiro? Ora, invadem os circuitos oficiais, também. Alguns acreditam que um DB pode até se infiltrar nos serviços oficiais. Deveria eu crer nisso?
            
                Nesse salto de artérias neurais o DB se torna o personagem e eu acordo com uma desordem venal. Oh, eu penso, é um DB, e então todo mundo sabe que não há nada neste mundo que se possa fazer quando constata uma desordem de DB senão ir lá e matar o DB. Porque as autoridades não farão nada por você pelo fato de que eles sentem que os DB, a coisa mais nojenta que poderia ter acontecido o mundo vir a projetar-se no seu espaço, bem, o DB é meio uma decorrência deles. Sentem muito por isso. Mas não destruirão aqueles zumbis projetados como uma consequência imprevista de um planejamento racional.


                  Ponho minhas galochas de ilírio e minhas roupas de um amálgama novo de elementos etéreos e lá vou eu no rastro do DB, todo mundo sabe que não há coisa mais fácil nesse mundo que rastrear um DB, e é preciso nesse ponto inserir a ressalva de que tudo isso está ocorrendo antes da grande Era quando, nós sabemos o futuro, nós sabemos pelos elementos etéreos descobertos há uns milênios antes, então na grande Era os Dbs estarão eliminados totalmente porque os humanistas conseguirão finalmente dar cabo um por um dos técnicos, e a isso será chamado Armagedon


                Viajo etereamente pelas trilhas do sistema e então ocorre...


                  Ocorre isso que não era possível que ocorresse.


                    Entro no antro do DB e me disponho , me ajusto, me convoco, me suplico, me etc., a fim de ter que olhar o DB um minuto antes de descarregar o revólver naquilo


                     Que se constitui num aparato de ser humano mas nós sabemos que aquilo não é


          um ser humano. Trata-se apenas de um aparato de olhos vazios que se deixa amorfo à sua frente, porquanto tudo o que há naquela coisa são números mais senhas do sistema com a ordem de invadir todos os documentos, de modificar todos os registros, de inverter todos os sentidos


Aquela coisa que tem uma pele, olhos, rosto, não é


                                                                                           etc.


                 Mas quando penetro no antro descubro que alguém esteve ali antes e que assassinou o DB, antes.


                 O DB já estava assassinado quando eu penetro no antro e agora a questão momentosa tornou-se: quem poderia ter feito uma coisa dessas?



    Conto II


            Eu tentava explicar para ele, o leitor ideal, que para nós o Whitmam já estava de todo desfrangalhado, distorcido, desmembrado, que não servia mais, que era uma reminiscência, mas para ele um americano é um americano é um americano
          Perpassa a flutuação do vinho como uma ideia que quase tenho, mas descer à cozinha e tomar a caneca de líquido rubro e rosa de um sol poente de inverno equivale a explicar que aqui é o caos, lá é outro e a geladeira guardando o precioso troféu garrafa transparente é outra parece térrea como herança de genitores que se foram antes de que eu fosse novamente adotada em regime desse incesto que se chama casamento selon la psychoanalises.
           Pegar o vinho é uma ideia ou um ato uma potência uma ação que eu não faço sentada porquanto a cadeira não anda. Parar o fluxo seria falsificar a história. Lembrando que estamos numa época de lei seca, como todo o mundo sabe, apenas lembrando por lembrar dos anos noventa, todo mundo sabe que estava proibido o álcool nos anos noventa, a proibição do álcool, e o bar desse tipo de vinho que esfuma é uma estação clandestina, tem aquele ar de que não pode ser o que ele é, de que não deve ser o que devemos esperar que ele continue sendo, etc.
          Eu tinha subido aquele estirão atrás daquele bar, mas tudo o que havia no lugar eram uns polícias e eu constatei isso quase que antes de ter olhado, os controles estavam um tanto autonomizados pelo esforço daquela trilha de subida subidona e súbita
           eu me peguei dando a meia volta por sobre os meus sapatos na semi-ânsia de que não Me notassem e vim vindo e depois tinha uns cinco outros  polícias e alguns mais num grupinho espraiado pela esquina lá embaixo
       esperando
       eu esperei por ali junto com outros que ali estavam e depois todos nós subimos porque os polícias já tinham feito a ronda e estava tudo limpeza e
                Um almoço em um aeroplano. Esta é a minha vida. Tudo isso eu dizia enquanto estudava a fórmula para o próximo teste. Ganhamos a vida através de fazer testes. É assim que somos nestes tempos. Antes do Armagedon.
               Desde o início tive febres confusas. O homem. As carnificinas a que chamam a história e que temos que saber para os testes. Cheiro de gordura e comovência programatizada nos computadores selvagens-semi da era de Aquarius
               Fiquei num teste repetido.
              Sou um caso de teste repetido porque não conseguem me fazer pensar que o homem tem razão,
           aquele pelo qual todos deviam ter um sentimento de condolência ao ler que fôra condenado a ser guilhotinado porque havia se metido numa briga por causa de um amigo, o único amigo que se lhe presentou naquele mar de solidão por todos os lados, mas fatalmente esse amigo era um sádico e havia espancado uma mulher e então tudo se passou como numa cena banal pela qual seus irmãos vingar-se-iam por ela nesse sádico que bem o merecia mas o pseudo-heroi, digo, como eles dizem, anti heroi, mas não sei como eles o dizem porque eu digo pseudo
                esse homem enfrentou essa briga que não era a dele mas do amigo e foi condenado por ter cometido um assassinato.
       Eu acho que é muito compreensível que tenha sido condenado e eu faria o mesmo que o promotor público, eu o condenaria do mesmo jeito e inclusive ele ajudou o amigo antes a planejar o espancamento
                               é isso que eu penso micro-segundos antes de projetar voluntariamente o pensamento de que o pobre coitado foi vítima dos cruéis cristãos a fim de passar no teste finalmente
              e
          tarde demais posto que o computador já havia grafado e traduzido as linhas iniciais do que eu não pude não pensar e eu não posso não pensar e assim eu volto ao
    dr. Freud que é o programa oficialmente destinado para fixados no problema deste teste.
                e estou nisso e nisso descobri a via alternativo do Bom Sol que é uma marca de programa onde há vinho e bares mas tudo isso ao longo de um período absolutamente fétido da história a qual se designa antes da lei seca e é muito caro a gente poder perambular por lá mas eu

arrumo uns com os demais testes enquanto esse continua a estar  repetido, de modo que não vão me dispensar por enquanto dos controles e aparatos do problema deste teste.
            Conto III
 
             Adeus, Melissa, essa marca de sandália plástica, velha de não se acabar mais, Adeus Melissa, que não chorará por mim, ainda que me tenha querido verdadeiramente. Oh, Upanishades do nosso coração, tudo isso eu dizia enquanto estudava a fórmula do adormecer. Por que a degustação do vinho é igual à contemplação da rosa mas não é igual à contemplação das nuvens?
             Chutei o dr. Freud enquanto recitava o singelo versinho decorado para isso e portanto a máquina nada registrou, saudando apenas “olá”. Esse é um truque velho. Todo mundo conhece. A máquina não registra nadíssima.
             Chutada a máquina dr. Freud, saudando, “olá”, eu saquei um “olá” do mesmo jeito, mas não sei por que a máquina pifou.
              O dr. Freud se escangalhou todo, e eu pensei que deve ter sido porque eu chutei um pouco forte demais dessa vez.
               Vieram examinar o problema na sala dos testes.

               Nós estávamos naquele momento em que o dr. Freud repetia a sequência que o idoso espancava o cão, o jovem espancava a mulher, a sociedade cristã … Ele queria que eu completasse que ela condenava o réu, mas ela não condenava o réu nessa sequência, ainda que fosse isso que eu devesse responder para aprovação no teste, eu penso que ela guilhotinou o assassino como deveria, o Raymond era um filho da puta que deveria ter ido para a guilhotina do mesmo jeito, só não foi porque não havia queixa formalizada, o assassino fez o que fez por causa do Raymond filho da puta, ora, não obstante o cara fez.

               Mas não adiantava que eu apenas dissesse. Tudo bem, a resposta da sequência é “condenou o réu”, mas eu não penso isso e a máquina registra.
         Pifada ela não registra. Vieram trocar o aparelho como se tudo houvesse sido uma grande bobagem. Como se não houvesse ocorrido coisa alguma. Eles não desconfiam que a gente chuta ou soca ou xinga a máquina, o dr. Freud. Eles vieram e trocaram, só isso.

              Aí a maquininha dr. Não sei das quantas começou uma lenga lenga inigualável de tão estéril pelo que eu deveria convencer-me de que os sádicos são melhores que os verdugos porquanto os sádicos escrevem sobre o sadismo deles, e os verdugos, não. Comecei a pensar o que é que eu tinha feito de tão grave, daí eles vieram e se desculparam como se tudo houvesse sido um grande engano e então me deixaram na sala com a máquina dr. Lacan.
              Ele começou a apresentar um gráfico cheio de setas e entradas alternativas com pontilhados e barras e coisas tais como x e potências e
           eu tive uma reminiscência e escrevi um poema.


     Conto IV

        
       Um grito é uma tonalidade

       aberrante da linguagem sem que

       se devesse abstrair da mensagem


       A monotonia é o contrário absoluto do grito


        Ambos confluem a uma plaga designada sexuada

       Com que tudo se solve na mesmidade amena do nada.



               Ficamos por isso e eu não obtive ainda um novo teste desde então. O dinheiro está acabando novamente e consequentemente. O rum está pelo menos do meio na garrafa. Começo uma fase severíssima de ensimesmamento-em-mim-mesma a fim de revisitar o outro-tempo não reeditando o quarto proustiano posto que foi descoberta a maldade dos


                   Rasgando páginas escritas, com medo, pensando que não sei que dizer/escrever, sabendo que eu quero expressar, mas sem saber se devo usar eu ou ela, nem quando.

                Com medo do que escrevo/escrevi e rasguei por causa do medo.

                  Com desprezo pelo utilitarismo em poesia. Com nojo de todos os utilitarismos, e sabendo que com a delicadeza se perdem os homens uma vez que eles estejam na era da eletrônica, since a história universal, porque eu preciso acreditar que houve um povo invisível

                 Com medo de fumar porque trêmulo efeito se verifica, estando as veias esquisitas.

                  Pensando que seria necessário tão pouca coisa e no entanto...

                    OU usa-se a história e os nomes entram, e narram-se acontecimentos com versos reflexivos. OU alinham-se reticências em sugestivos desabafos, OU brinca-se com o papel em operações perigosas.

                     Brinca-se com o papel em operações perigosas.

                     Mas jamais em tempo algum explicar?

                      E onde se entrefecha o implicado?


                      Eu não chuto o doutor Lacan porque ele fala de um jeito engraçado. Com efeito a gente sente vontade de chutar ele quando ele começa a história evolutiva universal, mas assim que ele o detecta, a gana, pois é, ele muda o assunto e envereda por um tipo de interpretação de textos poéticos bastante alternativa e até mesmo alterada e vai ficando tudo homogêneo, e a gente entra na severidade mais total e

                  Entenda-se que o problema venal que voltou é este e


                           Não temi que descobrissem o problema do DB, mas sim sempre soube que eles iriam descobrir que eu vi que o DB já havia sido despachado tão (in)convenientemente para mim, e que eles iam querer que eu testemunhasse.
                           A coisa realmente pede algum esclarecimento posto que como todos sabem, a gente tem que matar o DB caso seja o caso do DB ec-sistir porque um DB não é como alguma coisa que tem várias ocupações, não, a única ocupaçaõ do DB é você.

                          Portanto, quem pode ter ido matar o DB antes que... e …

                          E quem plantou o novo desvio e ...


             Volto a subir uma esquina com um bar lá em cima. E tinha que ser meio dia, misturando-me com crianças e mães voltando da escola. Deixei a lotação e a fila, vim andando e agora estou arfando por causa do esforço. Sopra um vento forte enquanto eu subo, que envolve meu corpo em lufadas repentinas. O céu desliza um cordão de nuvens longínquas sobre o mar. Subo, eu subo. A rua vai se tornando mais estreita, o asfalto acaba, sinuosos becos sucedem-se em encruzilhadas irregulares, eu derivo à esquerda por uma montanha de pequenos degraus.

               Olho as casinhas enquanto ando e penso que sou um homem que está voltando de uma longa guerra.
    Conto V

                 Joana está fazendo feijão. Como sempre, parece totalmente concentrada na tarefa, mas está completamente absorta, perdida no seu mundo de loucura. Ele entra. Joana continua lavando os grãos na água corrente. Agora havia água corrente, entre nove da manhã e duas da tarde.
              Abraça a irmã, a mãe, descobre que o velho padastro bêbado está morto. Toda a metade da tarde se passa entre um banho, uma refeição, uma camisa limpa. E agora? Ele pensa. Sai pela subida, perdendo-se entre os becos, as passagens, as escadas.

                   Essa a estória que eu invento enquanto subo. Volto aos meus sapatos ressoando pesadamente na subida árida. Me arrependo de ter deixado a lotação lá com a fila. Ela. Deviam explodir este pronome em pedacinhos. Para que pedacinhos? Bastariam letras. Fonemas. E, L, A. E acabariam as dúvidas? Que dúvidas? As minhas, só podem ser as minhas. Parece que mais ninguém tem dúvidas, ou então é que as pessoas não duvidam de mais nada. Armistício. Paz! Paz! Fico olhando para ver se algum carro de polícia perpassa. Lá em cima...
    
                Passeio na praça principal, depois que volto com o rum enrustido. Miríades de Miríades. A bolsa pesa porque trouxe duas garrafas. Há livros formando um contorno para que pensem que tudo o que tem na bolsa são esses livros contornantes. Ela/Eu é uma mulher em transe. Os pombos explodem a Cinelândia e ocupam inteiramente a árvore mais próxima. O homem vendendo milho para as pessoas darem aos pombos é a incongruência que o seu pensamento deve desviar, se quiser continuar em equilíbrio.

                  Os pais divorciados devem passar por aqui. As putas não divorciadas que vão adiante de vós/nós quando se tratar do paraíso estão na esquina da Marrecas com o Passeio Público. Uma velha passa de casaco verde, braço-dado com o marido, de casaco de couro claro. Ambos usam jeans e tem o ar estupefato dos adolescentes que não existem mais. Ela enfileira os passos, toda a sua boca está trêmula, seus joelhos estão trêmulos, e o Roxy está funcionando. Ela Entra/Eu Entro..

                       No escuro pode ser que os homens estejam se masturbando. Mas não molestam a mulher sentada próximo à tela. Ela bebe o seu rum tranquilamente, debaixo das luzes coloridas que jorram da tela, com relativa tranquilidade. Mas ela é insegura e fica olhando se há polícias por aí.

                          À paisano, por exemplo.

                      Em primeiro lugar ela devia fazer as pessoas pararem de se masturbar na escuridão do cinema pornô. Riu um pouco nervosa, mas com um pouco de zombaria. Rindo nervosamente. Estou (não) estou rindo nervosamente. Ela.

                       Não ter dúvidas e não duvidar. Esse cinema é frequentado por aqueles adolescentes que vem ver os streap teases de todas as quartas. Esse cinema é feito para isso. A menina do streap tease do filme agora está mostrando o traseiro enorme. Ela vem aqui apenas porque ninguém implica com o Rum.                       
                      Convenciona-se que os adolescentes podem ver o filme proibido, e etc, tudo proibido, então ela também pode beber o rum proibido sem ninguém ver nada, proibido. Ninguém aqui é como o homem que entrou no cinema depois de ter lido o jornal.

                        O elevador está cheio. Poderia ficar minutos pensando em não ter dúvidas e não duvidar. Penso que sou um garoto e a viela mal iluminada sente o meu pé descalço percorre-la correndo com raiva. Outros passos formam eco na encruzilhada e ele dobra na primeira rua que aparece. Salta para dentro do muro. Os cachorros da rua inteira latem e eu atravesso o quintal desejando que seja tão completamente escuro quanto parece. Há mais dois quintais por trás do muro escalável. Mas todos amplamente iluminados. A casa acende imediatamente as luzes, comunicando a percepção das lâmpadas em cadeia. Dois anos depois ele estava livre.



                Para não ter dúvidas é preciso ter duvidado? Caos sala de aula. Caos-corpo sensível. Cumprimento caoticamente a esmo.

                 Tudo está no meio. Os olhos de todos multiplicam-se por todos e a voz da professora é sugada para dentro dos olhos sobre bocas. As pessoas sentam seus narizes. Um mar ápeiron impregna tudo e eu posso me escapar daqui. Tudo rebate repentinamente na lousa verde.

                 Lousa-verde. Verde-frio. Lousa quente, repentinamente, pelo barulho do giz. A protuberância subitamente cristalina se quebra num som estridente. Todos riem.

                 No fundo do poço artesiano uma menina caiu. Os bombeiros levaram dias tentando encontrá-la, salvá-la. Estou bem no fundo agora, e conseguirei avançar mais. Rumo ao inincontrável para ser inincontrável. Ao lado do seu corpo-inerte está o corpo-inerte da mãe. Dorme ao lado da mãe, sonha que está em Berlim. A privacy é um assunto espiritual. Leu coisas quando era adolescente. A aula se parte quando as pessoas levantam e eu retorno do poço negro e quente.


             O elevador está cheio. As pessoas conversam. Uma professora não veio e é preciso esperar. Corajosamente me sento à vista de todos. O pátio interno tem cadeiras, grupos, duplas. Tenho um caderno, uma caneta e uma ideia bruxuleante. Perpassa. Algo é estranho a tudo. Alguém está sentado? Uma cadeira vazia, e inteiramente vazia. E...

            Acordo na onda do programa, volto, retorno, é tépido acordar do programa, ainda que seja com o problema da interferência venal e o problema de ter que testemunhar sobre e o dr. Lacan me perguntou como era na escola e eu tive que pensar nisso.

               O elevador está quieto. Estou atrasada demais. Duas ou três pessoas povoam o espaço mal iluminado. Vou, defronte os cabelos escuros que vão ao mesmo tempo defronte. Seus dentes eram amarelos? Ela queria que fossem brancos. Mas não os dele. Os dele podiam ser verdes ou laranja, os dele podiam ser lilazes.

                Perto demais. Se afasta um pouco. Ele se adianta e pergunta sobre a prova. Haverá prova? Ela está se dando bem? Não sei, não, sim, não estou interessada, são essas as respostas possíveis, é preciso escolher

                                                             uma

    mas mesmo depende como resposta não coincide com apenas informar do absenteísmo crônico de que padecem as pessoas envolvidas com operações tais como esconder garrafas por entre livros e vir de lugares que foram decretados escusos

              Ele olha profundamente

              Ela ri


                Entram no pátio interno. Ele sai à procura de uma cadeira. Minhas mãos começam um esboço rápido com o lápis sobre a folha do caderno. Rápido, nervoso, tentando dominar o trêmulo. A página recebe imediatamente um perfil e uns cabelos castanhos e escuros.

                   Está em casa, estou. Ela. Estou em casa e é sábado à noite, não estou sozinha. Os cabelos escuros estão em sua cabeça. Mas também Indra, Mitra e Varuna.

         O elevador está cheio, na segunda. Pessoas gordas conversam. Pessoas magras esperam em silêncio. A porta abre e o mar de pessoas se fragmenta num estranho pontilhismo. Estou sentada na escada. Não quero ver ninguém. Saio da lateral e pulo os degraus inferiores. Não há aula, mas haverá mais tarde.

               Eles sentam perto. Havia cadeiras disponíveis. Não é muito tarde, pelo contrário, é muito cedo. Imediatamente ela está rabiscando o caderno com padrões de iluminura. Mas depois começa a traçar ideogramas chineses.


       Conto VI
        
                       Ordem, ah, sim, uma ordem, uma ordem, como queremos e como odiamos, a ordem
      Estamos na pura extensão que tem esses problemas de medos súbitos à noite quando a gente acorda e pensa absurdamente em fantasmas

                    O  silêncio é dizer algo e esperar que ressoe

            para pegar o próximo tema e exercitar as assonâncias, não estou louvando Freud, eu já quis varrê-lo do mapa do sonho, mas não me lembro de vê-lo no sonho, como eu tenho que enfrentar o problema do dinheiro, eu tenho que arranjar dinheiro, e agora já não é para comprar só o rum mas também o pão e o leite, ainda que não nos mesmos bares, não são os mesmos bares que vendem essas coisas todas, naqueles onde vendem o rum há homens com armas pesadas, no mínimo são metralhadoras, eles ficam te olhando com as metralhadoras no ombro enquanto você compra o seu rum com o cara que está atrás do balcão assim como todos os caras que ficam atrás de balcões como se uma coisa não tivesse nada a ver com outra,
                                      e depois, à noite, você fica pensando nas metralhadoras e elas às vezes são bonitas, ou nos revólveres dos coldres, eles são sempre de um modo que me lembra a palavra opacidade, e

            eu penso que não fazer absolutamente nada seria um objetivo poético, místico, eles não sabem que na Índia existem pessoas emparedadas no que chamam covas da felicidade, essas pessoas são inativas, elas vivem com terços místicos e rezando lá nas covas, emparedadas, sozinhas, elas são...

                 Não estou louvando Freud. Perigosos sons estão zumbindo nos ouvidos, estou com o rum, tal como este último é avaliado nos termos do que defini como empiria ec-sistencial
                Mas eu não vou varrê-lo, e quanto a vê-lo no sonho, isso é uma coisa esquisita, o dr. Freud no sonho
                    depois de ter sido substituído pelo dr. Lacan que me informaram ter sido ora substituído pela suspensão por ora dos testes por causa do testemunho...
                   Eles, os da cova, eles quereriam chegar a ser um enorme olho, só um olho-corpo sem precisar de mais nada de sentidos a não ser um mundo-único-olho-corpo? A gente não pensa que precisaria pensar neles quando a gente pensa que está pensando em seres humanos como são...
 
                 Eu queria pensar que estou sempre numa estrada é a estrada de Adarts, que vai para aqui mesmo, sempre por aqui mesmo, mas uma estrada e

                     irei ao México

                                  Sou um clandestino


                 Os fatos da história são esses. Em 1920 alguém é preso por dar o traseiro – aquilo a que chamam bunda. Em 1970 alguém é preso se gostar demasiado da cor vermelha. E hoje alguém é preso se estiver de posse de... Rum.
                      Ou pode haver um tiroteio no bar. Mas eu acho um programa insubstituível andar e andar até um bar
se for um bar que vendem Rum

             em vez dos pão com manteiga

        E se você quiser saber mesmo estou pouco me lixando para os tiroteios e para a guerra do Rum, afinal, todo mundo vai para onde vai, e

                     o maldito DB novo, digo, porquanto o testemunho ocorrerá já tendo ocorrido o que ocorreu, mas agora este e
do maldito do DB novo que como explicarei no testemunho
porquanto este e vem sem traço de ausência, explico-me, ele deveria ser como o apanhador no campo de centeio, ele está ali desde que se está a subir ou a correr ou a e....

           uma micro-ação colonizadora é quando você vê a polícia no bar do Rum, porquanto o Rum é uma Religião, bem, consideremos la situacion, se você der meia volta, simplesmente, com o ar de quem estava faminto, à procura somente de pão com manteiga

       Tudo sol e cinza e neon, nenhum problema no bar do Rum, estava lá tudo tão calmo e tranquilo como quando apenas você teve uma bebedeira, porquanto houve uma greve geral e todos os polícias estavam ocupados com o centro da cidade.

                Comecei a vê-lo frequentemente no sonho, o dr. Freud. Fico pensando se não poderiam consertá-lo. É intrinsecamente diferente, e...
                 Visto meu disfarce de estudante universitária, eu devo testemunhar HOJE.
                                  Na praça da Boa Vista um DB foi visto... Eu não conheço nenhum DB. Na rua dos escrevinhadores um DB foi encontrado... Eu não vi nada de suspeito. A senhora deparou-se com um DB caído... Eu estava ali por acaso... Penso que a estratégia melhor seria gritar que a culpa é dos técnicos.
Entra um técnico e...
                                           


               Conto VII

                   Estou provisoriamente em suspense conforme a fórmula da reclusão domiciliar por questões de provas ausentes/prováveis acrescidas da repetição do teste e... Sou só uma testemunha, alego,  e eles me colocam na reclusão domiciliar para minha própria segurança, alegam.


          Conto VIII

            É sábado à noite e eu me sento em frente à televisão. Ligada, a televisão com setenta e seus tantos canais só está exibindo pornografia, e eu fico me perguntando porque.

                    Uma cena tem um homem realizando o que manda o script com uma mulher enquanto alisa a outra, ambas deitadas juntas com ele e em seguida a câmara mostra ainda uma outra que vem se encaminhando, com um corpete, bamboleando o corpo, com uma das mãos sabe-se onde, e o homem arruma um jeito, lá entre as duas, de acenar para que ela se junte ao grupo.

           Começo a ficar irritada porque só há essas coisas na tela da televisão por assinatura, é sábado à noite e eu me pergunto porque deveria ficar irritada?
                                         Outro canal mostra uma mulher fazendo sexo oral com o homem e em meio a intervalos ela diz “meu deus! Meu deus!”, daí o homem põe a mão no rosto dela e parece se tornar agressivo, enquanto ri.
          Mudo os canais, todos só mostram essas coisas. Descubro um canal onde exibe-se um filme não pornográfico. É um policial – prêmio de beleza masculina com um cãozinho de raça, ambos sentados numa cama enquanto ele pensa como derrotar o terrível bandido, um patife que a gente fica com vontade de esganar desde o primeiro momento que o mostra com aquela cara de hediondez pura.

                         O policial é um herói comme il faut , e enquanto os bandidos fogem dele um carrega uma câmera dessas compradas em lojas, e então a imagem do filme fica sendo o que a câmera capta enquanto o bandido corre na rua, é um sarro. Até que o policial consegue finalmente dar cabo desse bandido patife, todo o problema do filme inteiro tendo sido – adivinhe – a tolerância das demais autoridades quanto a trancafiar esse monstro tão obviamente monstruoso que já devia estar preso antes de começar o filme, que nem é preciso a gente se dar ao trabalho de classificar na escala de toda espantosamente óbvia monstruosidade. 

           Fico pensando porque o sensual é tão oposto obviamente ao pornográfico.
                                  Acordo reclamando com o meu marido, desses filmes pornográficos na televisão.

        Volto ao Roxy na segunda-feira, com o Rum que arrumei num beco – esse a gente não precisa subir, fica numa esquina próxima a uma pracinha pública, o beco fica isolado do passeio por um monte de lixo jogado ao leu que assinala que depois do lixo pra lá é beco, gueto, favela, etc.

        O Roxy está funcionando e eles estão exibindo os filmes pornográficos como sempre. Lembro irritada dos da televisão. Os do Roxy são  melhores. Um casal majestoso me chama atenção. Eles são insólitos. São só eles na cena e a câmera os capta muito proeminentes, sem aquele distanciamento comum dos filmes pornô que enquadra os artistas como que no fundo de um quadro, nunca muito “proche”, nunca muito superficial, nunca como se fosse um cartaz. Nesse, inversamente, eles são agigantados, vistos um pouco de baixo para cima, bem colados à câmera. Mas a moça fica de costas enquanto o rapaz louro segura os cabelos dela por trás num só gesto, arranjados como num feixe, e ela fica gritando, intermitentemente, enquanto ele realiza o script - o intercurso sexual - com ela de costas para ele.

          Há uma espécie de claro escuro, eles estão num banheiro, ela apoia-se no console da pia, em frente ao espelho. A posição projeta o rosto dele, que se torna impositivo ao olhar da tela. É o aspecto desse rosto, enquanto ele maneja os cabelos dela, escuros e compridos, que parece tão insólito.
                       É um ar dominador, um ar de quem realiza uma maestria desse domínio, um ar de quem está no ato de domar uma presa, se apossar de uma cidade. É impressionante e não tem nada a ver com a pornografia propriamente dita.

                             Andando no lusco fusco pela transição da tarde à noite, ao vir do cinema. Não sou uma rosa nem sou púrpura. Aqueles não são artistas que vão me convidar para entrar na tela. O que acontece lá dentro não é uma festinha de família. Não admite outrem.
       Encontrei um caderno antigo onde eu tinha anotado uma tabela com filósofos, data, lugar, princípio. Na entrada Heráclito, 535-475, Éfeso, Fogo estava agregado entre parênteses: mudanças – holismo de Gaia. Não tenho ideia porque eu escrevi isso uma vez, e não me lembrava de ter desenhado a tabela. Há poesias



O pálido espetáculo

Apoiado e livre

Contigo onde estiver

Agora

Retorna

E faz crescer

A voz dos passarinhos

Na manhã espessa

O céu cor de pêssego

E o teu beijo

Na promessa da alvorada



           Depois há um artigo:  "A Grécia alcançava essa unidade …"

     Obviamente o início está antes do poema. Volto as páginas do caderno. "Texto: Introdução". Mas à página anterior há uma inscrição : "PNIX – onde a assembléia popular se reunia'". Volto mais páginas, entendo que esse era o projeto de uma “Apostila de filosofia em nível médio”. Alguém deve ter me solicitado isso.

       Deixo essa caderneta. Eu detesto cadernos pequenos e esse é daquele tipo do menor tamanho.


                       Revisando esses papéis velhos. De um tipo que eu fiquei usando uma vez, eram simplesmente folhas soltas. Elas deviam se juntar sem se juntar. Apenas se amontoar numa pasta de cartolina enquanto iam sendo escritas. Há "miss y", que começa com um exercício deliberado de descrição pura mas tendo por objeto a pessoa. Uma pessoa. Imaginária. A descrição é extremamente minuciosa. E depois desemboca no fato dessa "miss y" estar às voltas com a cibernética. As duas coisas, a descrição e o enredo, eram interligados pelo final da descrição “Ela parecia ao mesmo tempo uma moça e um velho muito poderoso ou muito sábio. Aquela moça era miss y mas pouco sabiam. Seu nome conservava o I sonoro, mas não se grafava no próprio y.”.

          Eu não sei bem o que eu quis expressar com isso. Apenas o y era favorável que não fosse percebido como uma letra num nome. Ela devia ser incógnita do mesmo modo “Ninguém talvez se surpreendesse de saber que aquela era a própria administradora. Mas o fato de nunca ser possível localizar a administração em si, o que realmente ela representava, podia também ser que aquela moça fosse qualquer uma das quatro posições, ou uma quinta, já que todos agora só falavam no desdobramento por causa da cibernética.”

                 É incompreensível porque naquela época eu estava usando um sistema de palavras chave que se perdeu. Esqueci. Eram como zonas intensas ou comandos de práticas ou indexações de pensamentos a serem sistematizados, intuições. Eu os juntaria numa narrativa em que eles eram apenas significativos como insólitos.

                                “Mas pelo menos a cibernética como tema podia ser atribuído a Ela, fora sugestão sua, e isso podia ser provado, mas não parecia lhe importar muito.” Segue-se um romanceamento da personagem. Muitos adjetivos. Ela fica como um estereótipo televisivo. Uma pessoa discreta, uma pessoa que se vestia com roupas escuras, uma pessoa algo pomposa, uma doutora sutil que não desejava chamar atenção mas tinha ares esculturais, uma líder audaciosa no íntimo, uma professora implacável, mas paciente, doce. Ela obtinha a confiança das pessoas e superara as resistências.
                     Nesse ponto um tanto enfadonho, em que todas essas atribuições são longamente enfileiradas por meio de frases à Barbara Cartland, o texto envereda por uma segmentação novamente incompreensível:

                   “Era evidente que havia rumores a respeito das falhas da tirania, e esses eram os mais profundos comentários que se aproveitavam a respeito. Ela não ignorava nenhum, mas justamente os estava utilizando em sua própria busca da verdade. Então adotou slogans: 'vote no coração' e depois 'os guerreiros estão a caminho'. Livrou-se deles mais tarde, conduzida pelas novas experiências da caixa preta. A caixa preta era o próprio livro de cibernética. Foi por este sistema que ela aprendeu cibernética. Mas isso só os mais chegados sabiam. Tudo o que os outros podiam experimentar era uma lógica fria, meticulosa, mas concisa, absoluta, incontestável. Tudo o que restava era concordar. 'As vantagens da discordancia', pensava ela, ' devem ser usadas com muito cuidado e por muito poucos.' "

       Só isso. O conto "miss y".

                             Nesse momento em que eu escrevia, em 1990, recuperando-me do acidente, sem saber que estava iniciando um exílio que não foi rompido, ao longo desses quase vinte anos, nem pela universidade, nem pelo Rum. E que agora está oficializado como o imperativo da reclusão.
          A ironia. O exílio da escritura, the prison house of language, o Sujeito que se desoprime anulando-se enquanto intersubjetivo, mantendo-se na historicidade, colando-se em artefatos de pequeninos discursos que se sobrepõe ao infinito, e sendo espionada pelos DB, e sofrendo interferências de circuito venais pelos DB, e respondendo a inquérito por um DB, que após ter sido assassinado coloca o problema da autoria deste deveras estranho feito, do mesmo modo, à minha pessoa …

              Copio daquela época o manuscrito de uma “Cena de teatro 1”, bastante incompreensível:

              " - Eu vou tentar os lados! Grita o solista, como os filósofos gritam o seu eureka. E inicia um movimento de

1º) Perceber a estranha formação em que está situado

2º) Detectá-la como perigosa

3º) Procurar brechas e finalmente, encontrar a possibilidade de sair pelas 2 “entradas” do palco. Nessa direção, os cartazes de “entrada” deverão estar justapostos desde o começo da cena, como letreiros de bar numa rua estreita. Mas quando o corpo investe a saída incidental do som alto do último acorde de uma orquestra parecida com a música de Satie (pode-se usar a própria). E as luzes apagam repentinamente.

               Cena. “Crônicas marcianas” junho de 2003. A partir de: “- espera aí! Samuel Teece pulou do alpendre, agarrando as rédeas de um cavalo montado por um negro ...”

até

“Pegue seu dinheiro, Samuel – disse alguém do alpendre”

                A cena deve ser conduzida num estilo fotonovela, com alpendre, fundo incidental de novela de rádio e não pode prescindir do alpendre. Usa-se de preferência o modelo moçárabe já em sua interpretação luso-brasileira.


        Cena

             Entra comediante. “Estou aqui para DIVERGIR”. Toca “Estou amando loucamente”, de Roberto Carlos. Silêncio. O comediante assume a versão Agildo Ribeiro, misturado com Ronald Golias.

- Aqui estou eu de novo. Totalmente, no meio dessas pessoas. Drogado, digo. Oh, eles não sabem, não sabem! E porque estão me olhando? Isso são só pensamentos. Já vimos que não sairei assim, de graça. Cá estou eu drogado, e tendo que divertir as pessoas.

Entra o solista.

- Senhores, interromper a cena torna-se inevitável. Não é nada disso que ele devia estar dizendo!

- E o que ele devia estar dizendo?

Pergunta o comediante, a sério.

- Seu estúpido imbecil. Lá vem você com essa história de 'não sei do que você está falando'. Todos sabem e você agora vai falar o que deve, conforme o script ou sairá de cena, cedendo seu lugar a algum aplicado profissional.

O comediante começa a andar em círculos, dizendo

- Drogado, drogado. Nada disto está acontecendo.

              O solista dá o sinal, os enfermeiros avançam mas o comediante principia arlequinescos movimentos livrando-se dos enfermeiros.

- Nãããão. - Ele grita finalmente e salta sobre a plateia. Senta-se bem próximo ao primeiro espectador, no corredor.

             O solista procura um violão e começa a cantar todos os jingles das eleições para governador de 1990.


Cena do jornal

            A jornalista pega a câmera sobre a mesa e começa a fotografar a plateia. Fotografa geral e individuais. Mas não sai do palco, embora explore-o bem.



             Cena da Escola de Samba

          Entram os componentes, mas poucos. O importante é o figurino. Sambam uma música de Jorge Ben. Anastácio e a mulher conversam.;

- Chega de beber – ele diz para a mulher.

- Não me enche, Anastácio. Deixa eu fazer o que eu quiser. Que mania de me tratar como criança. - Anastácio mal olha para ela. Está interessado nas informações gerais do ambiente.

- Isso aqui está cheio hoje.

           A mulher não repara o que ele fala, absorta, mas em si mesma. Imediatamente Basílio os encontra e começa um longo papo sobre taxas de juros. Um halo de luz vai destacando cada vez mais a mulher até tudo em volta continuar na semi-escuridão do apenas visível. A luz formada pelo foco é o luar. O pano fecha. Toca alguma coisa bem lunar tipo samba ou então aquela música portuguesa “não sei porque me persegues/ constantemente na rua/ sabes bem que sou casada...”

         Volta o comediante. Ele chega e segue, no estilo Menandro.

- Vocês pensaram que eu não chegaria aqui. Não é? Pensaram, ora, os psicopatas não circulam em universidades. Eles não percebem o que está acontecendo. Sim, acreditavam.

Volta-se.

- Quantos maconheiros tem nessa plateia?

     Pula do palco para a plateia e pergunta a um espectador:

- Você é maconheiro?

O espectador levanta-se e grita:

- Sou!

                  Os dois se abraçam e riem do resto da plateia. Vão andando para o palco em “conversas típicas”.

- E aí? Cara, no bar do bel little camp os shocks (gíria: “polícia”) estão abestalhados. O fluxo anda revolucionando as expectativas.

- De 4, três.

- Com Rum.

            Nisso o espectador já no palco faz trejeitos de quem anuncia um belo acontecimento.

- Atenção para a apresentação!

          Tira do bolso um papel. Ambos se sentam depois de tudo pronto. Bebem de uma garrafinha. Depois de algum tempo, um pergunta ao outro

- O Japão e as coisas japonesas. O mundo vai ficar incompreensível, Jack?

- Cada vez mais, Joe.

- Antigamente ele não era...

- Não. Quanto mais antigamente, mais compreensível ele era.

- E o que vai acontecer, Jack?

- Você já entendeu a natureza das vozes, Joe?

- Já. Entendi ontem. As vozes na nossa cabeça não são nossas, mesmo quando elas encerram a mais cabal das convicções. Mas então Jack, o que é que somos?

- É isso o que vai acontecer, Joe. Todos vão perguntar o que são.

- As vozes, é ainda isso que nós somos, e a compreensão que tive estava errada.

- Absolutamente não estava errada. Nós não somos as vozes. Nós somos o ouvido. As vozes só falam para ouvidos. Nós somos como que ouvidos que obrigam as vozes a falarem.

- Então é loucura.

- É ter novos ouvidos.


                 O conto é só isso. Encerra-se. Segue-se uma folha com um poema



Todos nós somos filhos do sol

O sol é o pai de toda criatura viva

Por isso, agora você está na estrada

Contemple a estrada

Você está de carro?

Você está a pé?

Repare na estrada, em tudo o que passa por ela

que passa por ela

A estrada

por onde todo mundo passa



             Há folhas dobradas com letras de música, em 1990 nós tínhamos um conjunto com David, que nos deixou nos primeiros dias de janeiro de 2000. De um acidente de carro. Meu único amigo, depois do acidente de que eu estava me recuperando em 1990.
                               Do acidente que aconteceu quando eu estava voltando da primeira faculdade. Um prefeito que estava bêbado. O prefeito de São João de Meriti. Foi detido pela polícia, e então me conduziram ao hospital, e flaglaram com o bafômetro que ele estava dirigindo bêbado.
        Mas eu não lembro de nada. Eu estava no estágio, numa biblioteca do centro da cidade, e depois, quando acordei, era o hospital. Mas tudo não se concatenava, a visão era apenas uma espécie de parede amarelada sobre os meus olhos.

                 Eu nunca mais vou ter nenhum outro amigo. Todos poderão se aproximar mas nunca mais ninguém vai ser como o David.

              

  Livro II : Escritos



     1
           Que deveriam vir com o complemento de serem “secretos”. Mas que eu chamo “segredo”? A elaboração sensível.


           Estive lendo uns judeus. Mas como as coisas são lentas na cabeça de um judeu! Ele realmente realiza experiências tais que as ações chegam a se parecer realmente com um ato unidade.

          Eles se levantam cedo e depois a interação deles com alguma pessoa x é narrável. Eles sabem o que a pessoa x pensa ao responder.


      2


             

              O modo como isso tinha se constituído uma máquina tinha a ver com a leitura dos livros que estavam envolvidos com não exatamente as máquinas mas o ser sensível do pensamento, mais o fato de não serem sensíveis os hiato que não tanto o permeavam ou constituíam mas de que eles eram feitos a partir da descontinuidade fundamental não exatamente deles mesmos mas dos níveis ou como se dizia platôs de que se lançavam projetados por ... eis o mistério, como se fossem faculdades anímicas  é   o que não me serve agora mas antes isso bastava para que pudesse girar em torno mas há formas de se estar adiante dos livros, tantas quantas são as formas de não se estar atualmente tendo nada a ver com eles.


             Não se escreve pensando que se trata de livros mas mesmo as experiências, o mesmo que o pensamento articulando-se num nível sobre o si mesmo em fragmentos de que se lança projetado  uno.


               O tempo não está passando na janela. Eu é que mudo de paisagem? Quanta puerilidade, quanto pesadume nessa pergunta. A esperança é a medida do homem. Mas não a perfeição. E a isso eu chamo a “tendência dissimulada”, esta do predador natural.


               Penso em todos os malucos da cidade que estão pensando a mesma coisa. O caminho. Pense neles como uma rede de fios nervosos, e inclua as categorias de pressão e distensão, força e equilíbrio, sem deixar de lembrar do desejo, que colocará tudo em ação, solicitará os movimentos de opção e afinal, traçará o caminho. Agora, pense no caminho.


               Trata-se de escolher com os seus pés, e você o faz desde que acorda, saindo sempre pelo mesmo lado. Isto é o tempo. Necessariamente uma contagem, e só assim. Mas e então, o que é que se conta? Baboseiras, e mandamentos bíblicos. Diga duas vezes. Respire fundo e diga trinta e três. Eu vou avaliar a sua máquina segundo os meus critérios de estados ótimos, você não precisa se preocupar.


           O seu tempo... O meu tempo... A medicina prova que o tempo não existe, que ele é apenas uma categoria mental. As bolinhas de fliperama também tem uma mística. O enlouquecimento das probabilidades que não são mais entes de razão, e sim de movimento, choque, e trajetórias indicadas.


                   Não há tempo subjetivo, o que há é tempo contado, submetido a determinadas regras de conversão, indicações de importância e escalas decimétricas.


              Não há nada mais igual que uma impressão digital. O refrão dos meus marinheiros imaginários, trocando de mão em mão a garrafa de Rum. Eis uma exemplar equação formal de convergência em contagem, o que muda é ela em si mesma, a tal impressão; mas de acordo com certos cálculos de perspectiva, amplia-se ao máximo a probabilidade de informação daqueles movimentos serem tendenciais, movimento, isso, movimento, e a técnica de fotogramas ilegítimos. Apenas uma equação, apenas.


            E o seu caminho se complica numa bifurcação justo onde se ergue imponente o edifício do Carandiru. São Paulo é mesmo de lascar. O percurso das prisões. O que você acha que está acontecendo lá? Um pouco de tempo em estado puro. Puríssimo. O céu dos cristãos, a oficialidade da família.


                   Mas pelo menos os presos sabem o que está acontecendo, certo? Eu, há muito tempo não sei mais. O mundo não perdeu a sua consistência, foi a materialidade que se tornou problemática.


                        Nada é difícil distinguir. É uma garrafa de pepsi-cola, um menino vendendo tomate no sinal de trânsito, o auto-falante gritando propaganda. Eu vi o tomate no meio do padrão sonoro, o vídeo-game de todo dia. O tempo, o que não existe, o que você só pode ganhar na medida em que está perdendo, a terrível equação. Porque a contagem é justamente o passado, produzido como tal, mas de tal modo que se faz como um fio de barbante que indica o caminho percorrido, e no entanto, se nós não estamos em lugar nenhum...


            O que é que eu faço com esse inútil fio, é o que qualquer um perguntaria, ao se surpreender com o conjunto de um novelo embaraçado em suas mãos. Provavelmente o jogaria fora, mas então verificaria que ele não para de nascer, estar sendo produzido, sempre, sempre, então isto é o tempo, qualquer um pensaria. E estaria errado. Porque o tempo não é o seu próprio passado, ele não é a contagem, apenas implica em uma contagem, mas se distingue perfeitamente dela, o tempo está do outro lado do movimento, uma herança mágica do deus músculo, do deus sangue, do deus comida.


            Coisas muito complicadas hoje em dia. E você deve sair de casa pela manhã, ou antes, e percorrer algumas das ruas principais à procura de uma oportunidade de mostrar o seu valor. Agora se ao invés disto, você se meter numa cabana abandonada no meio da reserva florestal de sua cidade e lá passar a viver, eu tenho certeza que você vai descobrir o outro lado do movimento. Quando perceber que o pássaro é que está dentro do seu canto.


                       Por que é que você olha desse jeito, de trás para a frente, do começo para o fim, de modo que não dá para distinguir se é você que está olhando ou sendo olhado? Calma, não precisa ficar obcecado com aquela cena do barbante se acumulando, vamos fazer o seguinte: mude a imagem para longos fios luminosos, que você sente ao redor de si como partes independentes de você. Movimente-os e sinta as impressões que vem dali. Cores impossíveis e imagens que armazenam um máximo de sugestão para um mínimo de definição.


                 De modo que você não sabe se está vendo ou pensando. Mas tudo isso é assim mesmo. Do outro lado do passado, quer dizer, antes dele, está o movimento que jamais será, etc., digamos que está a consciência ou, sejamos modernos, e falemos antes de não-consciência, ou outra consciência.


         Outro. Outra. E acabamos aqui, neste nebuloso terreno onde é preciso um período inteiro de conversas e acordos para este tal músculo se mover.


    3


            As partes que devem parecer que estão compostas não são verdadeiramente representáveis.


             Nem nome, nem rosto, e um corpo de pássaro que é todo esse céu. Há um outro mundo? Bem, milhares deles. Não me espere aqui e ali. Senhor inimigo de narrativas, a infiltração é uma arma poderosa. Ela potencializa meu corpo enquanto o inimigo morre de fome.


               É sempre corrupção, mas nos países inflacionados falta o carimbo que conferiria oficialidade à coisa.

               E então, aproveitando-se disso, todo uma extensa rede paralela de tráfego de carimbos é posta a funcionar enquanto que o plano da realidade correspondente não funciona, e assim, daria uma grande história dos absurdos, a lista dos fatos carimbados em tal país.

               Este aqui, por exemplo. Deixe ver, um clandestino eu estava no México e depois fui para o Brasil. Daqui para a Bolívia. Percorrendo o tamanho da minha própria vida que está ligada em qualquer parte deste corpo. E o corpo que está ligado em qualquer ponto de passagem, estrada, ruela, beco.


                  As luzes se acendem no fim da tarde, os bares funcionáveis funcionam, as pessoas discutem a vanguarda teatral, os jornais são lidos, mas o que aconteceu com os controles?

                 E então o buraco negro se abre novamente, não se está mais onde se estava, como se o tempo tivesse passado, mas se ainda estamos, afinal de contas, é porque ainda não passou de verdade. Década dos sixties, guera fria. Aquela guerra de todo maluco, banho frio, madrugada fria, frio, fria. A sintetização da matéria-prima. E a indústria milenar do homem. Produção de distâncias e de saltos. Droga? Os sixties já foram o resultado de dez anos de acumulação em cima da sintetização do estanho, isto é, história boliviana, quando então descobriu-se que a droga valia muito mais do que o estanho.


                  Mas como não apontar a formação de uma passagem, aqui? Valia muito mais para quem? E além do mais, a imagem da indústria permanece obscura demais para ter utilidade. Mas para um tal fenômeno de esclarecimento, seria preciso novamente voltar no tempo. Indo e voltando o tempo todo, para compreender que presente?


                         Nesse caso a palavra certa seria antes. No final dos anos cinquenta. Mas para entender realmente o que aconteceu então, é preciso conhecer geografia moderna porque sem estes conhecimentos as pessoas tendem a confundir os nomes com as nacionalidades de tradução de nomes, e então acontecem dois fenômenos: por um lado cada um entende uma coisa, por outro lado ninguém entende nada.


            Não adianta ficar se perguntando se existe uma revolução industrial itinerante ou se cada cultura produz a sua própria revolução industrial.

             Se existe uma revolução tecnológica que se espalha como um saber que vai sendo assimilado é preciso concordar que nesse caso haveria somente uma cultura privilegiada, um modo de vida privilegiado, um modo de produção privilegiado porque a própria revolução industrial é, ou implica em, um modo de produção - tanto capitalista quanto comunista – de fundo estatal.

              Os próprios conceitos de tecnologia, e produto, já são uma problematização específica da questão proposta de modo que a sua existência determina o seu consumo e não o contrário.


              Por outro lado, se cada cultura produz a sua própria revolução industrial, torna-se necessário perguntar porque afinal, cada país deve produzir uma coisa destas. Qual o programa que está sendo cumprido? Não é só que esta afirmação ignora as relações entre os países, relações de poder que são inclusive dados no próprio contexto da industrialização e da exploração de matéria-prima. É que tanto ele quanto a outra alienam o problema da matéria-prima assim como ambos se dizem em um só sentido.


                  Não houve confusão alguma com os termos cultura e país. É que justamente estes são os dados com que a geografia moderna trabalha e sempre se estará diante de linhas de linguagem divergentes, como se algo obrigasse a tomar necessariamente uma coisa pela outra.



                                      A revolução industrial é uma aparelhagem tecnologicamente aprimorada para utilização e insumo de trabalho escravo. O problema está nas máquinas de substituição, o desprezo pelo próprio sentido, e a consequência lógica ou a produção de frases equivalentes.


                   E é assim porque a geografia moderna trabalha com dados necessariamente embaralhados. Porque são os dados que já supõem sua utilização e mesmo sua confusão, ou entrelaçamento, continuidade, de modo que para ler um dado é preciso conhecer o posicionamento de todos os outros.


                       E os dados vão sendo lançados para todos os séculos até que o resultado seja um mesmo para todos os casos.


        Mas não houve uma afirmação nesse lançar, não há um imperativo em jogo, ao contrário, neste caso o que temos é uma rede tramada por fora que vem se precipitar sobre um local, aprisionando tudo o que estiver por baixo de si.


        Toda a operação começou pela formação de países.


         Uma formação política, quer dizer, uma formação existencial, efetivação de uma ideia que não existia, um ensaio, mas também um sintoma.



         4

Historinha dos comecinhos dos anos noventa



  onde devia estar o traficante, está a polícia


     onde devia estar o ladrão, está o presidente da república


         onde devia estar a prostituta, está o senador


               onde devia estar o formigueiro, está o edifício


                    onde devia estar a rua, está a "joaninha"


                             onde devia estar você, ficou o seu dinheiro.


      5

              "Joaninha" é como se chamavam antigamente aos carros de patrulha da polícia - porque eles eram pequenos fuscas.

             O caso é que estou cansada de toda essa conversa sobre isto e aquilo, o que eles chamam arte, figuração ou não, tudo se resume a alguns encontros entre determinadas pessoas em determinados lugares, e agora no dia em que uma pessoa sai fazendo alguma coisa e não encontra ninguém, também ninguém quer ver o que ela faz.

             Se é bom ou não bom é um tema para tudo e um tema é sempre uma coisa irritante. Honestidade? Dos sentidos? Mas eles são intrinsecamente desonestos porque a própria percepção não suportaria essa prova. Mas fala-se em artes plásticas, em artes visuais, e em objetos e em corpo.


                  Fazem de uma discussão de arte teorias da revolução industrial, e isso é tudo o que temos em nosso país, pró ou contra.


                   Qual a diferença entre um vagabundo e muitos vagabundos?


                    Depois os textos serão jogados no lixo, quando a pessoa morrer. Ou então a revolução industrial chegará na sua fase gloriosa, quando tiverem abolido essa excrecência, o papel, e tudo será voz e visor.


                      Acabou o rum e acabou o dinheiro. A casa não é um ovo sem ser também um buraco, prisão, paredes e tecnologia. Não se pode viver na esquina. Vista negra, nós estamos aqui finalmente, sempre voltaremos para cá de uma forma ou de outra e aqui faz calor, eu preciso passar a vida debaixo d'água, então eu abdico desta coisa insuportável e obrigatória chamada casa e vivo somente num banheiro, não preciso de mais nada, e quando os idiotas vierem me falar sobre os aspectos inalienáveis do sistema e da participação nos lucros eu não ouvirei porque o barulho do chuveiro abafa tudo o mais.


                           O desmoronamento e o século XI como campo de confluência, desastre propriamente estelar, e depois a empresa, o século XVIII, XIX, a clandestinidade e a produção de um outro modo de viver e de ver.


          É a linha, a passagem, o futuro, e estará sempre além do que fazemos agora, como o movimento é diverso do ato.


        O próximo bar é o daquela praça com um canto esquerdo e eu terei dinheiro, e é preciso estar lá as sete e meia com suas pernas e braços funcionando, e a percepção proprioceptiva acoplada ao visor exteroceptivo, e necessariamente com o sentido assegurado e a importância assegurada, e a vida compreendida, o céu sem nuvens e alguma pedra de açúcar para carregar. A visão total. Tudo de uma vez. E contar suas experiências e rir dos pseudo-artistas de plástico. Os seres de pele fina que somos, muy irritadiços, que não suportam o atrito.


                       As cenas básicas transitam por projetos de memória sendo arquivados. Trancando-se nas palavras trôpegas que se tornam demasiado profusas. (…)


                          A memória é um sistema de precipitação, e o abismo produz o eco, não o contrário, como todo mundo esquece.


                           Estou querendo uma consciência limpa. Ser uma consciência limpa? Ser.



    6


         A história recua muito tempo. Invasão solar dos deuses fálicos – sedentários. Mas o sol é esse que fica hesitando por entre as nuvens e depois submerge no cinza. O sol se oculta. A bruxaria derivou à clandestinidade desde que a linguagem convergiu em rede de filamentos e articulações quebradas e semi-desjuntas ao sol.



          Estou querendo libertar as palavras. Não sei de que elas não estão livres. Ser?



           De modo que o mito de Thoth é uma figura esquizofrênica ou oligofrênica dependendo do estágio histórico e do caso individual. O escritor - de verdade. Porque liberdade para a gente é um bom nome para código civil, penal, ou simplesmente estatuinte. Ou seja, é um troço quadrado sob todos os aspectos. (..._


mas mesmo assim o escritor aprende em primeiro lugar a erguer suas paredes de silêncio


que às vezes são leves _...) 2





                           Eu realmente não estou escrevendo uma cena coletiva. O fato disto serem fragmentos pesa contra mim. É do mesmo modo que um homem havia se determinado a cingir-se aos seus hábitos, seguindo Proust ou repetindo uma história de sua vida aprendida muito tempo antes do seu pai nascer, e então ele deveria sair no encalço daquele nascimento a fim de que o explicassem qual era o início da história em que era ele a parte depois do meio para o fim. Que não obstante era uma continuação em outra parte, a dele mesmo e assim por diante mas isso o ilimitava e o fragmento que ele era devia mentir para si mesmo através da história dos hábitos que se tratava de nada mais que uma continuidade, a good continuation, e ele estava desnudando isso, essa mentira.


          Do outro lado do Atlântico, não nesse, portanto nenhuma continuidade geográfica mas a mesmíssima coisa por trás do muro feito do mesmíssimo material de concreto por uns operários que para isso ganharam o mesmíssimo salário de fome a partir da mesmíssima máquina de gerar miséria inventada daquele lado e para cá estatuída por meio de que os nascimentos ora transportados via marítima pioneiramente eram mais que adstratos, formavam eles mesmos um extrato, o único a vigorar a partir de que esses nascimentos tinham sido a poder das armas feitas com a mesmíssima pólvora e intenção de matar


                    Do lado de cá. Assim, que adianta pensar que se trata de imigrantes minorias, se todos são imigrantes, muitos ou poucos, de uns ou de outras procedências, contanto que sejam imigrantes não aqui nascidos, estes esquecidos, se antes nascidos, das armas, digo ...


         Os fragmentos não reproduzem retalhos de micro-nacionalidades, o que se escreve a partir de um eu é o problema desse eu, não sua grandeza.


           Os pesos e as preponderância das frases poderiam ou pareciam falhar nalgum ponto mas era isso o que tentávamos produzir, o problema, ao redor de que haveria uma aparência



                      É realmente um horror que tenham começado a acusar ou a bajular pessoas que escreviam numa parte da mesma máquina separada por um oceano, acusá-las do fato de que escreviam com um mim mas impossibilitadas de seu eu, porquanto escreviam coletivamente, como se


        mas depois pensaram se isso não seria melhor e passaram a instalar rádio-escutas e inventaram máquinas que transformavam incontinente os conteúdos em coisas coletivas, máquinas espionadas, como tudo o mais se tornou universalmente, como tudo sempre era desde a lógica do revólver, etc.


          É realmente um horror que tenham começado...



     7


           O crítico estava interessado no modo como as frases se estiravam ou enlouqueciam. Ele havia perpassado imperceptivelmente da sua contraditória teoria do mim fragmentário coletivamente integrado para o verdadeiro plano do que estava acontecendo que era o signo. Ele não percebia que havia transitado. 



               Escrevo:

        

   Ampersend, alguma coisa mais


   Jiva & Paramatma


   Os sentidos se precipitam


       em direção à escrita


como a flor na folha franca


participa da forma


como a luz se Retoma em Foco


absoluta e branca


Brhama em Refulgência


no ritmo exato das estrelas


pulsando o som inverso & certo



                      Tive que voltar ao hospital, alguns dias depois do acidente. Foi muito grave. Fiquei internada quase uma semana. Mas me recuperei, só que não inteiramente a memória. Assim como um homem num filme que eu assisti. Ele sobreviveu de um acidente de avião, e então começou a se comportar de um modo muito, muito louco. Nada era limite para ele. Achava que podia voar se quisesse. A gente fica mesmo assim. A coisa não vale NADA. É uma bobeira total as seriedades cotidianas das pessoas além do prato de comida, da roupa do corpo e do abrigo para dormir.


        Agora a reclusão. Tantos anos depois. Não percebem que não me importa o risco de eles verem que eu fujo por entre as entrelinhas e percorro bares porque para isso devia eu antes me importar com o fato de serem bares...



                   Agora é apenas um sistema, de modo que as mensagens são fluxos energéticos que se deslocam acoplados a insistências sistêmicas generalizadas desde os programas do Sistema em geral designado mundo político público sociedade história estado isto trilhas

             percorrendo as trilhas como impulsos podemos escolher mas evitar bifurcações


             eu copio os antigos poemas místicos que agora estão reconvertidos em mensagens sistêmicas


           posto que não eram escritos em computadores eram de outro mundo


                   portanto


            o misticismo segundo wittgenstein é tudo o que ultrapassa a atribuição da linguagem na linguagem, mas hoje sabemos que toda atribuição da linguagem é uma trilha sistêmica portanto o místico é tudo o que percorre as trilhas


                          e somente isso


          O destino nos misturou aqui com essa espécie de pessoas. A nós, como para todo mundo, nunca veio o melhor nem o pior.


              Nem por isso pede-se da skepsis a oportunidade.


            A populaça de g... – agrupada em torno de um punhado de ricaços ignorantes, trapaceiros mas muito burros – costumava pensar do jeito que se segue. Como todos os seres humanos são mortais, um assassino não comete um crime. Posto que o que ele faz no presente, seria feito de todo modo um dia no futuro sem ser por ele, mas pela própria natureza. Assim, quanto mais a vítima for rica, menos o assassino é assimilável ao destino, por assim dizer, antecipado – posto que o destino de uma pessoa que vive com muita segurança, comida e remédios, não é prontamente associável à mortalidade do ser humano. Mas quanto mais a vítima está por sua condição física ou social, exposta à insegurança do já agora universal destino, tanto menos o assassino é algo diferenciável deste. Capíce?


                Por isso, o único meio de produzir em g... algum progresso social, é instituir a cadeira elétrica para todo 171, assassino ou prejudicador da pessoa no gozo do que a lei prescreve em termos de sua inviolabilidade.


    Anexo:

                

                       Estou firmemente disposta a Esquecer Tudo. O filhinho da putinha do jovem, etc. Tudo. Esquecimento em atividade. Botão Azul.


                   Vou creditar todos os atos calhordas a um Suborno a que foram submetidos os combatentes destas fileiras pelo grande Subornador das fileiras de lá. Nem vou exigir a perna de carneiro que se costuma exigir nessas ocasiões, pro sacrifício. Não ek-ezigirei Nada.Não porque eu tenha qualquer fé. Não porque eu tenha qualquer Afeto. Não Sobrou Nada. Apenas porque este sentimento de justiça Seria ainda um afeto por Eles.


                             Nada.


                                Botão Azul pressed.


           Com apenas mais um poema:


          

   L'Erreur, selon qui?



          La societé decrepit


          Surgit


         Avec un trés noveaux


         Visage


        pour qui vouz defáire le visage


  c'est necessaire


  une jambe de Brebis





           eis porque as pernas de carneiro andam faltantes no mercado


           eles andam pondo os carneiros nos lugares dos cachorros


           para fingir que são bichos de estimação


            quanto aos latidos


           improvisaram caixas de ressonância


           assim designadas Televisão


      E...

Put the Sense Out


Carreguem para Fora daqui a Metafísica


em atenção ao Senhor Pessoa


Se chamarem o Hospício


Creditem tudo aos auspícios e à responsabilidade do Senhor Pessoa


Ele é respeitável e conta com o favor das pessoas benevolentes


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