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A alma pura
contos
Eliane Colchete
Conto I
Essas memórias não são de outro tempo, mas estão
misturadas com uma intenção de um agora difícil de definir como é
indefinível a relação da gente com algo desconhecido que se abriu
de repente como um anômalo saltar de linhas, a mudança de trajeto
da escritura, que vai ser da escritura, mas por que pensar na
escritura, serão suas veias que estarão ao alcance do DB (débil
mental) qualquer treinado apenas na troca de letras de alfabeto por
signos numéricos.
Antigamente não se dizia DB, eles eram chamados de "hakers". Quando os circuitos eram somente externos. Pesquisei sobre isso numa fonte de "registros secretos". Mas DB ou "haker", tudo o que estão fazendo: invadindo os circuitos pessoais para se apossar dos controles pessoais. Pensando nisso a gente entende que DB é um nome mais apropriado. "Tudo", é tudo mesmo. Eles não se ocupam de nada mais. E como eles arranjam dinheiro? Ora, invadem os circuitos oficiais, também. Alguns acreditam que um DB pode até se infiltrar nos serviços oficiais. Deveria eu crer nisso?
Antigamente não se dizia DB, eles eram chamados de "hakers". Quando os circuitos eram somente externos. Pesquisei sobre isso numa fonte de "registros secretos". Mas DB ou "haker", tudo o que estão fazendo: invadindo os circuitos pessoais para se apossar dos controles pessoais. Pensando nisso a gente entende que DB é um nome mais apropriado. "Tudo", é tudo mesmo. Eles não se ocupam de nada mais. E como eles arranjam dinheiro? Ora, invadem os circuitos oficiais, também. Alguns acreditam que um DB pode até se infiltrar nos serviços oficiais. Deveria eu crer nisso?
Nesse salto de artérias neurais o DB se
torna o personagem e eu acordo com uma desordem venal. Oh, eu penso,
é um DB, e então todo mundo sabe que não há nada neste mundo que
se possa fazer quando constata uma desordem de DB senão ir lá e
matar o DB. Porque as autoridades não farão nada por você pelo
fato de que eles sentem que os DB, a coisa mais nojenta que poderia
ter acontecido o mundo vir a projetar-se no seu espaço, bem, o DB é
meio uma decorrência deles.
Sentem muito por isso. Mas não destruirão aqueles zumbis projetados
como uma consequência imprevista de um planejamento racional.
Ponho minhas galochas de ilírio e minhas roupas de
um amálgama novo de elementos etéreos e lá vou eu no rastro do DB,
todo mundo sabe que não há coisa mais fácil nesse mundo que
rastrear um DB, e é preciso nesse ponto inserir a ressalva de que
tudo isso está ocorrendo antes da grande Era quando, nós sabemos o
futuro, nós sabemos pelos elementos etéreos descobertos há uns
milênios antes, então na grande Era os Dbs estarão eliminados
totalmente porque os humanistas conseguirão finalmente dar cabo um
por um dos técnicos, e a isso será chamado Armagedon
Viajo etereamente pelas trilhas do
sistema e então ocorre...
Ocorre isso que não era possível que
ocorresse.
Entro no antro do DB e me disponho ,
me ajusto, me convoco, me suplico, me etc., a fim de ter que olhar o
DB um minuto antes de descarregar o revólver
naquilo
Que se
constitui num aparato de ser humano mas nós sabemos que aquilo não
é
um
ser humano.
Trata-se apenas de um aparato de olhos vazios que se deixa amorfo à sua frente, porquanto tudo o que há naquela coisa são números
mais senhas do sistema com a ordem de invadir
todos os documentos, de modificar todos
os registros, de inverter todos
os sentidos
Aquela coisa que tem uma pele, olhos, rosto,
não é
etc.
Mas quando penetro no antro descubro
que alguém esteve ali antes e que assassinou o DB, antes.
O DB já estava assassinado quando eu penetro
no antro e agora a questão momentosa tornou-se: quem poderia ter
feito uma coisa dessas?
Conto II
Eu tentava explicar para ele, o leitor ideal, que para nós o
Whitmam já estava de todo desfrangalhado, distorcido, desmembrado,
que não servia mais, que era uma reminiscência, mas para ele um
americano é um americano é um americano
Perpassa a flutuação do vinho como uma
ideia que quase tenho, mas descer à cozinha e tomar a caneca de líquido rubro
e rosa de um sol poente de inverno equivale a explicar que aqui é o
caos, lá é outro e a geladeira guardando o precioso troféu
garrafa transparente é outra parece térrea como herança de
genitores que se foram antes de que eu fosse novamente adotada em
regime desse incesto que se chama casamento selon la psychoanalises.
Pegar o vinho é uma ideia ou um ato uma potência
uma ação que eu não faço sentada porquanto a cadeira não anda.
Parar o fluxo seria falsificar a história. Lembrando que estamos
numa época de lei seca, como todo o mundo sabe, apenas lembrando por
lembrar dos anos noventa, todo mundo sabe que estava proibido o álcool nos anos noventa, a proibição do álcool, e o bar desse tipo de vinho que esfuma é uma estação clandestina, tem aquele ar de que
não pode ser o que ele é, de que não deve ser o que devemos
esperar que ele continue sendo, etc.
Eu tinha subido aquele estirão atrás daquele bar,
mas tudo o que havia no lugar eram uns polícias e eu constatei isso
quase que antes de ter olhado, os controles estavam um tanto
autonomizados pelo esforço daquela trilha de subida subidona e
súbita
eu me peguei dando a meia volta por sobre os
meus sapatos na semi-ânsia de que não Me notassem e vim vindo e
depois tinha uns cinco outros polícias e alguns mais num grupinho espraiado
pela esquina lá embaixo
esperando
eu esperei por ali junto com outros que ali estavam e depois todos nós
subimos porque os polícias já tinham feito a ronda e estava tudo
limpeza e
Um almoço em um aeroplano. Esta é a minha vida.
Tudo isso eu dizia enquanto estudava a fórmula para o próximo
teste. Ganhamos a vida através de fazer testes. É assim que somos nestes tempos.
Antes do Armagedon.
Desde o início tive febres confusas. O
homem. As carnificinas a que chamam a história e que temos que saber
para os testes. Cheiro de gordura e comovência programatizada nos
computadores selvagens-semi da era de Aquarius
Fiquei num teste repetido.
Sou um caso de teste repetido porque não conseguem me fazer pensar que o
homem tem razão,
aquele pelo qual todos deviam ter um sentimento de
condolência ao ler que fôra condenado a ser guilhotinado porque havia se metido numa briga por causa de um
amigo, o
único amigo que se lhe presentou naquele mar de solidão por todos
os lados, mas fatalmente esse amigo era um
sádico e havia espancado uma mulher e então tudo se
passou como numa cena banal pela qual seus irmãos vingar-se-iam por ela nesse
sádico que bem o merecia mas o pseudo-heroi, digo, como eles dizem, anti
heroi, mas não sei como eles o dizem porque eu digo pseudo
esse homem enfrentou essa briga que não era a dele mas do amigo e
foi condenado por ter cometido um assassinato.
Eu acho que é muito compreensível que
tenha sido condenado e eu faria o mesmo que o promotor público, eu o condenaria do mesmo
jeito e inclusive ele ajudou o amigo antes a planejar o espancamento
é isso que eu penso micro-segundos antes de projetar
voluntariamente o pensamento de que o pobre coitado foi vítima dos cruéis cristãos
a fim de passar no teste finalmente
e
tarde demais posto que o computador já havia grafado
e traduzido as linhas iniciais do que eu não pude não pensar e eu
não posso não pensar e assim eu volto ao
dr. Freud que é o programa oficialmente destinado para fixados no problema deste
teste.
e estou nisso e nisso descobri a via alternativo do Bom Sol
que é uma marca de programa onde há vinho e bares mas tudo isso ao
longo de um período absolutamente fétido da história a qual se
designa antes da lei seca e é muito caro a gente poder perambular por lá
mas eu
arrumo uns com os demais testes enquanto esse
continua a estar repetido, de modo que não vão me dispensar por enquanto dos controles e aparatos do problema deste teste.
Conto III
Adeus,
Melissa, essa marca de sandália plástica, velha de não se acabar mais, Adeus Melissa, que não chorará por mim, ainda que me tenha querido
verdadeiramente. Oh, Upanishades do nosso coração, tudo isso eu
dizia enquanto estudava a fórmula do adormecer. Por que a
degustação do vinho é igual à contemplação da rosa mas não é
igual à contemplação das nuvens?
Chutei o dr. Freud enquanto
recitava o singelo versinho decorado para isso e portanto a máquina
nada registrou, saudando apenas “olá”. Esse é um truque velho.
Todo mundo conhece. A máquina não registra nadíssima.
Chutada a máquina dr. Freud, saudando, “olá”,
eu saquei um “olá” do mesmo jeito, mas não sei por que a máquina
pifou.
O dr. Freud se escangalhou todo, e eu pensei que deve ter sido
porque eu chutei um pouco forte demais dessa vez.
Vieram examinar o
problema na sala dos testes.
Nós estávamos naquele momento em que o dr. Freud repetia a sequência que o idoso espancava o cão, o jovem espancava a mulher, a sociedade cristã … Ele queria que eu completasse que ela condenava o réu, mas ela não condenava o réu nessa sequência, ainda que fosse isso que eu devesse responder para aprovação no teste, eu penso que ela guilhotinou o assassino como deveria, o Raymond era um filho da puta que deveria ter ido para a guilhotina do mesmo jeito, só não foi porque não havia queixa formalizada, o assassino fez o que fez por causa do Raymond filho da puta, ora, não obstante o cara fez.
Mas não adiantava que eu apenas dissesse. Tudo bem, a resposta da sequência é “condenou o réu”, mas eu não penso isso e a máquina registra.
Nós estávamos naquele momento em que o dr. Freud repetia a sequência que o idoso espancava o cão, o jovem espancava a mulher, a sociedade cristã … Ele queria que eu completasse que ela condenava o réu, mas ela não condenava o réu nessa sequência, ainda que fosse isso que eu devesse responder para aprovação no teste, eu penso que ela guilhotinou o assassino como deveria, o Raymond era um filho da puta que deveria ter ido para a guilhotina do mesmo jeito, só não foi porque não havia queixa formalizada, o assassino fez o que fez por causa do Raymond filho da puta, ora, não obstante o cara fez.
Mas não adiantava que eu apenas dissesse. Tudo bem, a resposta da sequência é “condenou o réu”, mas eu não penso isso e a máquina registra.
Pifada ela não registra. Vieram
trocar o aparelho como se tudo houvesse sido uma grande bobagem. Como
se não houvesse ocorrido coisa alguma. Eles não desconfiam que a
gente chuta ou soca ou xinga a máquina, o dr. Freud. Eles vieram e
trocaram, só isso.
Aí a maquininha dr. Não sei das quantas começou uma lenga lenga inigualável de tão estéril pelo que eu deveria convencer-me de que os sádicos são melhores que os verdugos porquanto os sádicos escrevem sobre o sadismo deles, e os verdugos, não. Comecei a pensar o que é que eu tinha feito de tão grave, daí eles vieram e se desculparam como se tudo houvesse sido um grande engano e então me deixaram na sala com a máquina dr. Lacan.
Aí a maquininha dr. Não sei das quantas começou uma lenga lenga inigualável de tão estéril pelo que eu deveria convencer-me de que os sádicos são melhores que os verdugos porquanto os sádicos escrevem sobre o sadismo deles, e os verdugos, não. Comecei a pensar o que é que eu tinha feito de tão grave, daí eles vieram e se desculparam como se tudo houvesse sido um grande engano e então me deixaram na sala com a máquina dr. Lacan.
Ele começou a apresentar um gráfico cheio
de setas e entradas alternativas com pontilhados e barras e coisas
tais como x e potências e
eu tive uma reminiscência e escrevi um poema.
Conto IV
Um grito é uma tonalidade
A monotonia é o contrário absoluto do grito
Ambos confluem a uma plaga designada sexuada
Rasgando páginas escritas, com medo, pensando que não sei que dizer/escrever, sabendo que eu quero expressar, mas sem saber se devo usar eu ou ela, nem quando.
Eu não chuto o doutor Lacan porque ele fala de um jeito engraçado. Com efeito a gente sente vontade de chutar ele quando ele começa a história evolutiva universal, mas assim que ele o detecta, a gana, pois é, ele muda o assunto e envereda por um tipo de interpretação de textos poéticos bastante alternativa e até mesmo alterada e vai ficando tudo homogêneo, e a gente entra na severidade mais total e
Entenda-se que o problema venal que voltou é este e
Não temi que descobrissem o problema do DB, mas sim sempre soube que eles iriam descobrir que eu vi que o DB já havia sido despachado tão (in)convenientemente para mim, e que eles iam querer que eu testemunhasse.
Passeio na praça principal, depois que volto com o rum enrustido. Miríades de Miríades. A bolsa pesa porque trouxe duas garrafas. Há livros formando um contorno para que pensem que tudo o que tem na bolsa são esses livros contornantes. Ela/Eu é uma mulher em transe. Os pombos explodem a Cinelândia e ocupam inteiramente a árvore mais próxima. O homem vendendo milho para as pessoas darem aos pombos é a incongruência que o seu pensamento deve desviar, se quiser continuar em equilíbrio.
Os pais divorciados devem passar por aqui. As putas não divorciadas que vão adiante de vós/nós quando se tratar do paraíso estão na esquina da Marrecas com o Passeio Público. Uma velha passa de casaco verde, braço-dado com o marido, de casaco de couro claro. Ambos usam jeans e tem o ar estupefato dos adolescentes que não existem mais. Ela enfileira os passos, toda a sua boca está trêmula, seus joelhos estão trêmulos, e o Roxy está funcionando. Ela Entra/Eu Entro..
No fundo do poço artesiano uma menina caiu. Os bombeiros levaram dias tentando encontrá-la, salvá-la. Estou bem no fundo agora, e conseguirei avançar mais. Rumo ao inincontrável para ser inincontrável. Ao lado do seu corpo-inerte está o corpo-inerte da mãe. Dorme ao lado da mãe, sonha que está em Berlim. A privacy é um assunto espiritual. Leu coisas quando era adolescente. A aula se parte quando as pessoas levantam e eu retorno do poço negro e quente.
O elevador está cheio. As pessoas conversam. Uma professora não veio e é preciso esperar. Corajosamente me sento à vista de todos. O pátio interno tem cadeiras, grupos, duplas. Tenho um caderno, uma caneta e uma ideia bruxuleante. Perpassa. Algo é estranho a tudo. Alguém está sentado? Uma cadeira vazia, e inteiramente vazia. E...
Acordo na onda do programa, volto, retorno, é tépido acordar do programa, ainda que seja com o problema da interferência venal e o problema de ter que testemunhar sobre e o dr. Lacan me perguntou como era na escola e eu tive que pensar nisso.
O elevador está quieto. Estou atrasada demais. Duas ou três pessoas povoam o espaço mal iluminado. Vou, defronte os cabelos escuros que vão ao mesmo tempo defronte. Seus dentes eram amarelos? Ela queria que fossem brancos. Mas não os dele. Os dele podiam ser verdes ou laranja, os dele podiam ser lilazes.
Ela ri
Entram no pátio interno. Ele sai à procura de uma cadeira. Minhas mãos começam um esboço rápido com o lápis sobre a folha do caderno. Rápido, nervoso, tentando dominar o trêmulo. A página recebe imediatamente um perfil e uns cabelos castanhos e escuros.
Está em casa, estou. Ela. Estou em casa e é sábado à noite, não estou sozinha. Os cabelos escuros estão em sua cabeça. Mas também Indra, Mitra e Varuna.
Conto IV
Um grito é uma tonalidade
aberrante da linguagem sem que
se devesse abstrair da mensagem
A monotonia é o contrário absoluto do grito
Com que tudo se solve na mesmidade amena do nada.
Ficamos por isso e eu não obtive ainda um novo teste
desde então. O dinheiro está acabando novamente e consequentemente.
O rum está pelo menos do meio na garrafa. Começo uma fase
severíssima de ensimesmamento-em-mim-mesma a fim de revisitar o
outro-tempo não reeditando o quarto proustiano posto que foi
descoberta a maldade dos
Rasgando páginas escritas, com medo, pensando que não sei que dizer/escrever, sabendo que eu quero expressar, mas sem saber se devo usar eu ou ela, nem quando.
Com medo do que escrevo/escrevi e rasguei
por causa do medo.
Com desprezo pelo utilitarismo em poesia.
Com nojo de todos os utilitarismos, e sabendo que com a delicadeza se
perdem os homens uma vez que eles estejam na era da eletrônica,
since a história universal, porque eu preciso acreditar que houve um
povo invisível
Com medo de fumar porque trêmulo efeito
se verifica, estando as veias esquisitas.
Pensando que seria necessário tão pouca
coisa e no entanto...
OU usa-se a história e os nomes entram, e
narram-se acontecimentos com versos reflexivos. OU alinham-se
reticências em sugestivos desabafos, OU brinca-se com o papel em
operações perigosas.
Brinca-se com o papel em operações
perigosas.
Mas jamais em tempo algum explicar?
E onde se entrefecha o implicado?
Eu não chuto o doutor Lacan porque ele fala de um jeito engraçado. Com efeito a gente sente vontade de chutar ele quando ele começa a história evolutiva universal, mas assim que ele o detecta, a gana, pois é, ele muda o assunto e envereda por um tipo de interpretação de textos poéticos bastante alternativa e até mesmo alterada e vai ficando tudo homogêneo, e a gente entra na severidade mais total e
Entenda-se que o problema venal que voltou é este e
Não temi que descobrissem o problema do DB, mas sim sempre soube que eles iriam descobrir que eu vi que o DB já havia sido despachado tão (in)convenientemente para mim, e que eles iam querer que eu testemunhasse.
A coisa realmente pede algum
esclarecimento posto que como todos sabem, a gente tem que matar o DB
caso seja o caso do DB ec-sistir porque um DB não é como alguma
coisa que tem várias ocupações, não, a única ocupaçaõ do DB é
você.
Portanto, quem pode ter ido matar o DB antes
que... e …
E quem plantou o novo desvio e ...
Volto a subir uma esquina com um bar lá em cima. E
tinha que ser meio dia, misturando-me com crianças e mães voltando
da escola. Deixei a lotação e a fila, vim andando e agora estou
arfando por causa do esforço. Sopra um vento forte enquanto eu subo,
que envolve meu corpo em lufadas repentinas. O céu desliza um cordão
de nuvens longínquas sobre o mar. Subo, eu subo. A rua vai se
tornando mais estreita, o asfalto acaba, sinuosos becos sucedem-se em
encruzilhadas irregulares, eu derivo à esquerda por uma montanha de
pequenos degraus.
Olho as casinhas enquanto ando e penso que sou um
homem que está voltando de uma longa guerra.
Conto V
Joana
está fazendo feijão. Como sempre, parece totalmente concentrada na
tarefa, mas está completamente absorta, perdida no seu mundo de
loucura. Ele entra. Joana continua lavando os grãos na água
corrente. Agora havia água corrente, entre nove da manhã e duas da
tarde.
Abraça a irmã, a mãe, descobre que o velho
padastro bêbado está morto. Toda a metade da tarde se passa entre
um banho, uma refeição, uma camisa limpa. E agora? Ele pensa. Sai
pela subida, perdendo-se entre os becos, as passagens, as escadas.
Essa a estória que eu invento enquanto subo. Volto aos meus sapatos ressoando pesadamente na
subida árida. Me arrependo de ter deixado a lotação lá com a
fila. Ela. Deviam explodir este pronome em pedacinhos. Para que
pedacinhos? Bastariam letras. Fonemas. E, L, A. E acabariam as
dúvidas? Que dúvidas? As minhas, só podem ser as minhas. Parece
que mais ninguém tem dúvidas, ou então é que as pessoas não
duvidam de mais nada. Armistício. Paz! Paz! Fico olhando para ver se
algum carro de polícia perpassa. Lá em cima...
Passeio na praça principal, depois que volto com o rum enrustido. Miríades de Miríades. A bolsa pesa porque trouxe duas garrafas. Há livros formando um contorno para que pensem que tudo o que tem na bolsa são esses livros contornantes. Ela/Eu é uma mulher em transe. Os pombos explodem a Cinelândia e ocupam inteiramente a árvore mais próxima. O homem vendendo milho para as pessoas darem aos pombos é a incongruência que o seu pensamento deve desviar, se quiser continuar em equilíbrio.
Os pais divorciados devem passar por aqui. As putas não divorciadas que vão adiante de vós/nós quando se tratar do paraíso estão na esquina da Marrecas com o Passeio Público. Uma velha passa de casaco verde, braço-dado com o marido, de casaco de couro claro. Ambos usam jeans e tem o ar estupefato dos adolescentes que não existem mais. Ela enfileira os passos, toda a sua boca está trêmula, seus joelhos estão trêmulos, e o Roxy está funcionando. Ela Entra/Eu Entro..
No escuro pode ser que os homens estejam se
masturbando. Mas não molestam a mulher sentada próximo à tela. Ela
bebe o seu rum tranquilamente, debaixo das luzes coloridas que jorram
da tela, com relativa tranquilidade. Mas ela é insegura e fica
olhando se há polícias por aí.
À paisano, por exemplo.
Em primeiro lugar ela devia fazer as pessoas
pararem de se masturbar na escuridão do cinema pornô. Riu um pouco nervosa, mas com um pouco de
zombaria. Rindo nervosamente. Estou (não) estou rindo nervosamente.
Ela.
Não ter dúvidas e não duvidar. Esse cinema
é frequentado por aqueles adolescentes que vem ver os streap teases
de todas as quartas. Esse cinema é feito para isso. A menina
do streap tease do filme agora está mostrando o traseiro enorme. Ela
vem aqui apenas porque ninguém implica com o Rum.
Convenciona-se que
os adolescentes podem ver o filme proibido, e etc, tudo proibido,
então ela também pode beber o rum proibido sem ninguém ver nada,
proibido. Ninguém aqui é como o homem que entrou no cinema depois
de ter lido o jornal.
O elevador está cheio. Poderia ficar
minutos pensando em não ter dúvidas e não duvidar. Penso que sou
um garoto e a viela mal iluminada sente o meu pé descalço
percorre-la correndo com raiva. Outros passos formam eco na
encruzilhada e ele dobra na primeira rua que aparece. Salta para
dentro do muro. Os cachorros da rua inteira latem e eu atravesso o
quintal desejando que seja tão completamente escuro quanto parece.
Há mais dois quintais por trás do muro escalável. Mas todos
amplamente iluminados. A casa acende imediatamente as luzes,
comunicando a percepção das lâmpadas em cadeia. Dois anos depois
ele estava livre.
Para não ter dúvidas é preciso ter duvidado?
Caos sala de aula. Caos-corpo sensível. Cumprimento caoticamente a
esmo.
Tudo está no meio. Os olhos de todos
multiplicam-se por todos e a voz da professora é sugada para dentro
dos olhos sobre bocas. As pessoas sentam seus narizes. Um mar ápeiron
impregna tudo e eu posso me escapar daqui. Tudo rebate repentinamente
na lousa verde.
Lousa-verde. Verde-frio. Lousa quente,
repentinamente, pelo barulho do giz. A protuberância subitamente
cristalina se quebra num som estridente. Todos riem.
No fundo do poço artesiano uma menina caiu. Os bombeiros levaram dias tentando encontrá-la, salvá-la. Estou bem no fundo agora, e conseguirei avançar mais. Rumo ao inincontrável para ser inincontrável. Ao lado do seu corpo-inerte está o corpo-inerte da mãe. Dorme ao lado da mãe, sonha que está em Berlim. A privacy é um assunto espiritual. Leu coisas quando era adolescente. A aula se parte quando as pessoas levantam e eu retorno do poço negro e quente.
O elevador está cheio. As pessoas conversam. Uma professora não veio e é preciso esperar. Corajosamente me sento à vista de todos. O pátio interno tem cadeiras, grupos, duplas. Tenho um caderno, uma caneta e uma ideia bruxuleante. Perpassa. Algo é estranho a tudo. Alguém está sentado? Uma cadeira vazia, e inteiramente vazia. E...
Acordo na onda do programa, volto, retorno, é tépido acordar do programa, ainda que seja com o problema da interferência venal e o problema de ter que testemunhar sobre e o dr. Lacan me perguntou como era na escola e eu tive que pensar nisso.
O elevador está quieto. Estou atrasada demais. Duas ou três pessoas povoam o espaço mal iluminado. Vou, defronte os cabelos escuros que vão ao mesmo tempo defronte. Seus dentes eram amarelos? Ela queria que fossem brancos. Mas não os dele. Os dele podiam ser verdes ou laranja, os dele podiam ser lilazes.
Perto demais. Se afasta um pouco. Ele se adianta
e pergunta sobre a prova. Haverá prova? Ela está se dando bem? Não
sei, não, sim, não estou interessada, são essas as respostas
possíveis, é preciso escolher
uma
mas mesmo depende como resposta não coincide com
apenas informar do absenteísmo crônico de que padecem as pessoas
envolvidas com operações tais como esconder garrafas por entre
livros e vir de lugares que foram decretados escusos
Ele olha profundamente
Ela ri
Entram no pátio interno. Ele sai à procura de uma cadeira. Minhas mãos começam um esboço rápido com o lápis sobre a folha do caderno. Rápido, nervoso, tentando dominar o trêmulo. A página recebe imediatamente um perfil e uns cabelos castanhos e escuros.
Está em casa, estou. Ela. Estou em casa e é sábado à noite, não estou sozinha. Os cabelos escuros estão em sua cabeça. Mas também Indra, Mitra e Varuna.
O elevador está cheio, na segunda. Pessoas
gordas conversam. Pessoas magras esperam em silêncio. A porta abre e
o mar de pessoas se fragmenta num estranho pontilhismo. Estou sentada
na escada. Não quero ver ninguém. Saio da lateral e pulo os degraus
inferiores. Não há aula, mas haverá mais tarde.
Eles sentam perto. Havia cadeiras
disponíveis. Não é muito tarde, pelo contrário, é muito cedo.
Imediatamente ela está rabiscando o caderno com padrões de
iluminura. Mas depois começa a traçar ideogramas chineses.
Conto VI
Ordem, ah, sim, uma ordem, uma ordem, como queremos
e como odiamos, a ordem
Estamos na pura extensão que tem esses
problemas de medos súbitos à noite quando a gente acorda e pensa
absurdamente em fantasmas
O silêncio é dizer algo e esperar que ressoe
para pegar o próximo
tema e exercitar as assonâncias, não estou louvando Freud, eu já
quis varrê-lo do mapa do sonho, mas não me lembro de vê-lo no
sonho, como eu tenho que enfrentar o problema do dinheiro, eu tenho
que arranjar dinheiro, e agora já não é para comprar só o rum mas
também o pão e o leite, ainda que não nos mesmos bares, não são
os mesmos bares que vendem essas coisas todas, naqueles onde vendem o
rum há homens com armas pesadas, no mínimo são metralhadoras, eles
ficam te olhando com as metralhadoras no ombro enquanto você compra
o seu rum com o cara que está atrás do balcão assim como todos os
caras que ficam atrás de balcões como se uma coisa não tivesse
nada a ver com outra,
e depois, à noite, você fica pensando nas
metralhadoras e elas às vezes são bonitas, ou nos revólveres dos
coldres, eles são sempre de um modo que me lembra a palavra
opacidade, e
eu penso que não fazer absolutamente nada
seria um objetivo poético, místico, eles não sabem que na Índia existem
pessoas emparedadas no que chamam covas da felicidade, essas pessoas
são inativas, elas vivem com terços místicos e rezando lá nas
covas, emparedadas, sozinhas, elas são...
Não estou louvando Freud. Perigosos sons estão
zumbindo nos ouvidos, estou com o rum, tal como este último é
avaliado nos termos do que defini como empiria ec-sistencial
Mas eu não vou varrê-lo, e quanto a vê-lo no sonho,
isso é uma coisa esquisita, o dr. Freud no sonho
depois de ter sido substituído pelo dr.
Lacan que me informaram ter sido ora substituído pela suspensão por
ora dos testes por causa do testemunho...
Eles, os da cova, eles quereriam chegar a ser um
enorme olho, só um olho-corpo sem precisar de mais nada de sentidos
a não ser um mundo-único-olho-corpo? A gente não pensa que
precisaria pensar neles quando a gente pensa que está pensando em
seres humanos como são...
Eu queria pensar que estou sempre numa estrada
é a estrada de Adarts, que vai para aqui mesmo, sempre por aqui
mesmo, mas uma estrada e
irei ao México
Sou um clandestino
Os fatos da história são esses. Em 1920 alguém
é preso por dar o traseiro – aquilo a que chamam bunda. Em 1970
alguém é preso se gostar demasiado da cor vermelha. E hoje alguém
é preso se estiver de posse de... Rum.
Ou pode haver um tiroteio no bar. Mas eu acho um
programa insubstituível andar e andar até um bar
se for um bar que vendem Rum
em vez dos pão com manteiga
E se você quiser saber mesmo estou pouco me
lixando para os tiroteios e para a guerra do Rum, afinal, todo mundo
vai para onde vai, e
o maldito DB novo, digo, porquanto o testemunho
ocorrerá já tendo ocorrido o que ocorreu, mas agora este e
do maldito do DB novo que como explicarei no
testemunho
porquanto este e vem sem traço de ausência,
explico-me, ele deveria ser como o apanhador no campo de centeio, ele
está ali desde que se está a subir ou a correr ou a e....
uma micro-ação colonizadora é quando você
vê a polícia no bar do Rum, porquanto o Rum é uma Religião, bem,
consideremos la situacion, se você der meia volta, simplesmente, com
o ar de quem estava faminto, à procura somente de pão com manteiga
Tudo sol e cinza e neon, nenhum problema no
bar do Rum, estava lá tudo tão calmo e tranquilo como quando apenas
você teve uma bebedeira, porquanto houve uma greve geral e todos os
polícias estavam ocupados com o centro da cidade.
Comecei a vê-lo frequentemente no sonho, o dr. Freud.
Fico pensando se não poderiam consertá-lo. É intrinsecamente
diferente, e...
Visto meu disfarce de estudante universitária, eu
devo testemunhar HOJE.
Na praça da Boa Vista um DB foi visto... Eu
não conheço nenhum DB. Na rua dos escrevinhadores um DB foi
encontrado... Eu não vi nada de suspeito. A senhora deparou-se com
um DB caído... Eu estava ali por acaso... Penso que a estratégia
melhor seria gritar que a culpa é dos técnicos.
Entra um técnico e...
Conto VII
Estou provisoriamente em suspense conforme a fórmula da reclusão domiciliar por questões de provas ausentes/prováveis acrescidas da repetição do teste e... Sou só uma testemunha, alego, e eles me colocam na reclusão domiciliar para minha própria segurança, alegam.
Conto VIII
É sábado à noite e eu me sento em frente à televisão. Ligada, a televisão com setenta e seus tantos canais só está exibindo pornografia, e eu fico me perguntando porque.
Uma cena tem um homem realizando o que manda o script com uma mulher enquanto alisa a outra, ambas deitadas juntas com ele e em seguida a câmara mostra ainda uma outra que vem se encaminhando, com um corpete, bamboleando o corpo, com uma das mãos sabe-se onde, e o homem arruma um jeito, lá entre as duas, de acenar para que ela se junte ao grupo.
Depois há um artigo: "A Grécia alcançava essa unidade …"
Deixo essa caderneta. Eu detesto cadernos pequenos e esse é daquele tipo do menor tamanho.
Revisando esses papéis velhos. De um tipo que eu fiquei usando uma vez, eram simplesmente folhas soltas. Elas deviam se juntar sem se juntar. Apenas se amontoar numa pasta de cartolina enquanto iam sendo escritas. Há "miss y", que começa com um exercício deliberado de descrição pura mas tendo por objeto a pessoa. Uma pessoa. Imaginária. A descrição é extremamente minuciosa. E depois desemboca no fato dessa "miss y" estar às voltas com a cibernética. As duas coisas, a descrição e o enredo, eram interligados pelo final da descrição “Ela parecia ao mesmo tempo uma moça e um velho muito poderoso ou muito sábio. Aquela moça era miss y mas pouco sabiam. Seu nome conservava o I sonoro, mas não se grafava no próprio y.”.
“Mas pelo menos a cibernética como tema podia ser atribuído a Ela, fora sugestão sua, e isso podia ser provado, mas não parecia lhe importar muito.” Segue-se um romanceamento da personagem. Muitos adjetivos. Ela fica como um estereótipo televisivo. Uma pessoa discreta, uma pessoa que se vestia com roupas escuras, uma pessoa algo pomposa, uma doutora sutil que não desejava chamar atenção mas tinha ares esculturais, uma líder audaciosa no íntimo, uma professora implacável, mas paciente, doce. Ela obtinha a confiança das pessoas e superara as resistências.
Nesse ponto um tanto enfadonho, em que todas essas atribuições são longamente enfileiradas por meio de frases à Barbara Cartland, o texto envereda por uma segmentação novamente incompreensível:
“Era evidente que havia rumores a respeito das falhas da tirania, e esses eram os mais profundos comentários que se aproveitavam a respeito. Ela não ignorava nenhum, mas justamente os estava utilizando em sua própria busca da verdade. Então adotou slogans: 'vote no coração' e depois 'os guerreiros estão a caminho'. Livrou-se deles mais tarde, conduzida pelas novas experiências da caixa preta. A caixa preta era o próprio livro de cibernética. Foi por este sistema que ela aprendeu cibernética. Mas isso só os mais chegados sabiam. Tudo o que os outros podiam experimentar era uma lógica fria, meticulosa, mas concisa, absoluta, incontestável. Tudo o que restava era concordar. 'As vantagens da discordancia', pensava ela, ' devem ser usadas com muito cuidado e por muito poucos.' "
Copio daquela época o manuscrito de uma “Cena de teatro 1”, bastante incompreensível:
" - Eu vou tentar os lados! Grita o solista, como os filósofos gritam o seu eureka. E inicia um movimento de
Cena. “Crônicas marcianas” junho de 2003. A partir de: “- espera aí! Samuel Teece pulou do alpendre, agarrando as rédeas de um cavalo montado por um negro ...”
Entra comediante. “Estou aqui para DIVERGIR”. Toca “Estou amando loucamente”, de Roberto Carlos. Silêncio. O comediante assume a versão Agildo Ribeiro, misturado com Ronald Golias.
Cena do jornal
A jornalista pega a câmera sobre a mesa e começa a fotografar a plateia. Fotografa geral e individuais. Mas não sai do palco, embora explore-o bem.
Entram os componentes, mas poucos. O importante é o figurino. Sambam uma música de Jorge Ben. Anastácio e a mulher conversam.;
O conto é só isso. Encerra-se. Segue-se uma folha com um poema
onde devia estar o traficante, está a polícia
A história recua muito tempo. Invasão solar dos deuses fálicos – sedentários. Mas o sol é esse que fica hesitando por entre as nuvens e depois submerge no cinza. O sol se oculta. A bruxaria derivou à clandestinidade desde que a linguagem convergiu em rede de filamentos e articulações quebradas e semi-desjuntas ao sol.
De modo que o mito de Thoth é uma figura esquizofrênica ou oligofrênica dependendo do estágio histórico e do caso individual. O escritor - de verdade. Porque liberdade para a gente é um bom nome para código civil, penal, ou simplesmente estatuinte. Ou seja, é um troço quadrado sob todos os aspectos. (..._
7
Conto VIII
É sábado à noite e eu me sento em frente à televisão. Ligada, a televisão com setenta e seus tantos canais só está exibindo pornografia, e eu fico me perguntando porque.
Uma cena tem um homem realizando o que manda o script com uma mulher enquanto alisa a outra, ambas deitadas juntas com ele e em seguida a câmara mostra ainda uma outra que vem se encaminhando, com um corpete, bamboleando o corpo, com uma das mãos sabe-se onde, e o homem arruma um jeito, lá entre as duas, de acenar para que ela se junte ao grupo.
Começo a ficar irritada porque só há essas
coisas na tela da televisão por assinatura, é sábado à noite e eu
me pergunto porque deveria ficar irritada?
Outro canal mostra uma
mulher fazendo sexo oral com o homem e em meio a intervalos ela diz
“meu deus! Meu deus!”, daí o homem põe a mão no rosto dela e
parece se tornar agressivo, enquanto ri.
Mudo os canais, todos só
mostram essas coisas. Descubro um canal onde exibe-se um filme não
pornográfico. É um policial – prêmio de beleza masculina com um
cãozinho de raça, ambos sentados numa cama enquanto ele pensa como
derrotar o terrível bandido, um patife que a gente fica com vontade
de esganar desde o primeiro momento que o mostra com aquela cara de
hediondez pura.
O policial é um herói comme il faut ,
e enquanto os bandidos fogem dele um carrega uma câmera dessas
compradas em lojas, e então a imagem do filme fica sendo o que a
câmera capta enquanto o bandido corre na rua, é um sarro. Até que
o policial consegue finalmente dar cabo desse bandido patife, todo o
problema do filme inteiro tendo sido – adivinhe – a tolerância
das demais autoridades quanto a trancafiar esse monstro tão
obviamente monstruoso que já devia estar preso antes de começar o filme, que nem é preciso a gente se dar ao trabalho
de classificar na escala de toda espantosamente óbvia monstruosidade.
Fico pensando porque o sensual é tão oposto
obviamente ao pornográfico.
Acordo reclamando com o meu marido,
desses filmes pornográficos na televisão.
Volto ao Roxy na segunda-feira, com o Rum
que arrumei num beco – esse a gente não precisa subir, fica numa
esquina próxima a uma pracinha pública, o beco fica isolado do
passeio por um monte de lixo jogado ao leu que assinala que depois
do lixo pra lá é beco, gueto, favela, etc.
O Roxy está funcionando e eles estão
exibindo os filmes pornográficos como sempre. Lembro irritada dos da televisão. Os do Roxy são melhores. Um casal majestoso me chama atenção. Eles são insólitos. São só eles na
cena e a câmera os capta muito proeminentes, sem aquele
distanciamento comum dos filmes pornô que enquadra os artistas como
que no fundo de um quadro, nunca muito “proche”, nunca muito
superficial, nunca como se fosse um cartaz. Nesse, inversamente, eles
são agigantados, vistos um pouco de baixo para cima, bem colados à
câmera. Mas a moça fica de costas enquanto o rapaz louro segura os cabelos
dela por trás num só gesto, arranjados como num feixe, e ela fica gritando, intermitentemente, enquanto ele realiza o
script - o intercurso sexual - com ela de costas para ele.
Há uma espécie de claro escuro, eles
estão num banheiro, ela apoia-se no console da pia, em frente ao
espelho. A posição projeta o rosto dele, que se torna impositivo ao
olhar da tela. É o aspecto desse rosto, enquanto ele maneja os cabelos
dela, escuros e compridos, que parece tão insólito.
É um ar
dominador, um ar de quem realiza uma maestria desse domínio, um ar
de quem está no ato de domar uma presa, se apossar de uma cidade.
É impressionante e não tem nada a ver com a pornografia
propriamente dita.
Andando no lusco fusco pela transição da
tarde à noite, ao vir do cinema. Não sou uma rosa nem sou púrpura.
Aqueles não são artistas que vão me convidar para entrar na tela.
O que acontece lá dentro não é uma festinha de família. Não
admite outrem.
Encontrei um caderno antigo onde eu tinha anotado uma
tabela com filósofos, data, lugar, princípio. Na entrada Heráclito,
535-475, Éfeso, Fogo estava agregado entre parênteses: mudanças –
holismo de Gaia. Não tenho ideia porque eu escrevi isso uma vez, e
não me lembrava de ter desenhado a tabela. Há poesias
O pálido espetáculo
Apoiado e livre
Contigo onde estiver
Agora
Retorna
E faz crescer
A voz dos passarinhos
Na manhã espessa
O céu cor de pêssego
E o teu beijo
Na promessa da alvorada
Depois há um artigo: "A Grécia alcançava essa unidade …"
Obviamente o início está antes do poema.
Volto as páginas do caderno. "Texto: Introdução". Mas à página anterior há uma inscrição :
"PNIX – onde a assembléia popular se reunia'".
Volto mais páginas, entendo que esse era o projeto
de uma “Apostila de filosofia em nível médio”. Alguém deve ter
me solicitado isso.
Deixo essa caderneta. Eu detesto cadernos pequenos e esse é daquele tipo do menor tamanho.
Revisando esses papéis velhos. De um tipo que eu fiquei usando uma vez, eram simplesmente folhas soltas. Elas deviam se juntar sem se juntar. Apenas se amontoar numa pasta de cartolina enquanto iam sendo escritas. Há "miss y", que começa com um exercício deliberado de descrição pura mas tendo por objeto a pessoa. Uma pessoa. Imaginária. A descrição é extremamente minuciosa. E depois desemboca no fato dessa "miss y" estar às voltas com a cibernética. As duas coisas, a descrição e o enredo, eram interligados pelo final da descrição “Ela parecia ao mesmo tempo uma moça e um velho muito poderoso ou muito sábio. Aquela moça era miss y mas pouco sabiam. Seu nome conservava o I sonoro, mas não se grafava no próprio y.”.
Eu não sei bem o que eu quis expressar com isso.
Apenas o y era favorável que não fosse percebido como uma letra num
nome. Ela devia ser incógnita do mesmo modo “Ninguém talvez se
surpreendesse de saber que aquela era a própria administradora. Mas
o fato de nunca ser possível localizar a administração em si, o
que realmente ela representava, podia também ser que aquela moça
fosse qualquer uma das quatro posições, ou uma quinta, já que
todos agora só falavam no desdobramento por causa da cibernética.”
É incompreensível porque naquela época eu
estava usando um sistema de palavras chave que se perdeu. Esqueci.
Eram como zonas intensas ou comandos de práticas ou indexações de
pensamentos a serem sistematizados, intuições. Eu os juntaria numa
narrativa em que eles eram apenas significativos como insólitos.
“Mas pelo menos a cibernética como tema podia ser atribuído a Ela, fora sugestão sua, e isso podia ser provado, mas não parecia lhe importar muito.” Segue-se um romanceamento da personagem. Muitos adjetivos. Ela fica como um estereótipo televisivo. Uma pessoa discreta, uma pessoa que se vestia com roupas escuras, uma pessoa algo pomposa, uma doutora sutil que não desejava chamar atenção mas tinha ares esculturais, uma líder audaciosa no íntimo, uma professora implacável, mas paciente, doce. Ela obtinha a confiança das pessoas e superara as resistências.
Nesse ponto um tanto enfadonho, em que todas essas atribuições são longamente enfileiradas por meio de frases à Barbara Cartland, o texto envereda por uma segmentação novamente incompreensível:
“Era evidente que havia rumores a respeito das falhas da tirania, e esses eram os mais profundos comentários que se aproveitavam a respeito. Ela não ignorava nenhum, mas justamente os estava utilizando em sua própria busca da verdade. Então adotou slogans: 'vote no coração' e depois 'os guerreiros estão a caminho'. Livrou-se deles mais tarde, conduzida pelas novas experiências da caixa preta. A caixa preta era o próprio livro de cibernética. Foi por este sistema que ela aprendeu cibernética. Mas isso só os mais chegados sabiam. Tudo o que os outros podiam experimentar era uma lógica fria, meticulosa, mas concisa, absoluta, incontestável. Tudo o que restava era concordar. 'As vantagens da discordancia', pensava ela, ' devem ser usadas com muito cuidado e por muito poucos.' "
Só isso. O conto "miss y".
Nesse momento em que eu escrevia, em 1990,
recuperando-me do acidente, sem saber que estava iniciando um exílio
que não foi rompido, ao longo desses quase vinte anos, nem pela
universidade, nem pelo Rum. E que agora está oficializado como o imperativo da reclusão.
A ironia. O exílio da escritura, the prison house
of language, o Sujeito que se desoprime anulando-se enquanto
intersubjetivo, mantendo-se na historicidade, colando-se em artefatos
de pequeninos discursos que se sobrepõe ao infinito, e sendo
espionada pelos DB, e sofrendo interferências de circuito venais pelos DB,
e respondendo a inquérito por um DB, que após ter sido assassinado
coloca o problema da autoria deste deveras estranho feito, do mesmo
modo, à minha pessoa …
Copio daquela época o manuscrito de uma “Cena de teatro 1”, bastante incompreensível:
" - Eu vou tentar os lados! Grita o solista, como os filósofos gritam o seu eureka. E inicia um movimento de
1º) Perceber a estranha formação em que está
situado
2º) Detectá-la como perigosa
3º) Procurar brechas e finalmente, encontrar a
possibilidade de sair pelas 2 “entradas” do palco. Nessa direção,
os cartazes de “entrada” deverão estar justapostos desde o
começo da cena, como letreiros de bar numa rua estreita. Mas quando
o corpo investe a saída incidental do som alto do último acorde de
uma orquestra parecida com a música de Satie (pode-se usar a
própria). E as luzes apagam repentinamente.
Cena. “Crônicas marcianas” junho de 2003. A partir de: “- espera aí! Samuel Teece pulou do alpendre, agarrando as rédeas de um cavalo montado por um negro ...”
até
“Pegue seu dinheiro, Samuel – disse
alguém do alpendre”
A cena deve ser conduzida num estilo fotonovela,
com alpendre, fundo incidental de novela de rádio e não pode
prescindir do alpendre. Usa-se de preferência o modelo moçárabe já
em sua interpretação luso-brasileira.
Cena
Entra comediante. “Estou aqui para DIVERGIR”. Toca “Estou amando loucamente”, de Roberto Carlos. Silêncio. O comediante assume a versão Agildo Ribeiro, misturado com Ronald Golias.
- Aqui estou eu de novo. Totalmente, no meio
dessas pessoas. Drogado, digo. Oh, eles não sabem, não sabem! E
porque estão me olhando? Isso são só pensamentos. Já vimos que
não sairei assim, de graça. Cá estou eu drogado, e tendo que
divertir as pessoas.
Entra o solista.
- Senhores, interromper a cena torna-se inevitável.
Não é nada disso que ele devia estar dizendo!
- E o que ele devia estar dizendo?
Pergunta o comediante, a sério.
- Seu estúpido imbecil. Lá vem você com essa
história de 'não sei do que você está falando'. Todos sabem e
você agora vai falar o que deve, conforme o script ou sairá de
cena, cedendo seu lugar a algum aplicado profissional.
O comediante começa a andar em círculos,
dizendo
- Drogado, drogado. Nada disto está acontecendo.
O solista dá o sinal, os enfermeiros avançam mas o
comediante principia arlequinescos movimentos livrando-se dos
enfermeiros.
- Nãããão. - Ele grita finalmente e salta sobre
a plateia. Senta-se bem próximo ao primeiro espectador, no
corredor.
O solista procura um violão e começa a cantar
todos os jingles das eleições para governador de 1990.
Cena do jornal
A jornalista pega a câmera sobre a mesa e começa a fotografar a plateia. Fotografa geral e individuais. Mas não sai do palco, embora explore-o bem.
Cena da Escola de Samba
Entram os componentes, mas poucos. O importante é o figurino. Sambam uma música de Jorge Ben. Anastácio e a mulher conversam.;
- Chega de beber – ele diz para a mulher.
- Não me enche, Anastácio. Deixa eu fazer o que
eu quiser. Que mania de me tratar como criança. - Anastácio mal
olha para ela. Está interessado nas informações gerais do
ambiente.
- Isso aqui está cheio hoje.
A mulher não repara o que ele fala, absorta,
mas em si mesma. Imediatamente Basílio os encontra e começa um
longo papo sobre taxas de juros. Um halo de luz vai destacando cada
vez mais a mulher até tudo em volta continuar na semi-escuridão do
apenas visível. A luz formada pelo foco é o luar. O pano fecha.
Toca alguma coisa bem lunar tipo samba ou então aquela música
portuguesa “não sei porque me persegues/ constantemente na rua/
sabes bem que sou casada...”
Volta o comediante. Ele chega e segue, no estilo
Menandro.
- Vocês pensaram que eu não chegaria aqui. Não
é? Pensaram, ora, os psicopatas não circulam em universidades. Eles
não percebem o que está acontecendo. Sim, acreditavam.
Volta-se.
- Quantos maconheiros tem nessa plateia?
Pula do palco para a plateia e pergunta a um
espectador:
- Você é maconheiro?
O espectador levanta-se e grita:
- Sou!
Os dois se abraçam e riem do resto da
plateia. Vão andando para o palco em “conversas típicas”.
- E aí? Cara, no bar do bel little camp os shocks
(gíria: “polícia”) estão abestalhados. O fluxo anda
revolucionando as expectativas.
- De 4, três.
- Com Rum.
Nisso o espectador já no palco faz trejeitos
de quem anuncia um belo acontecimento.
- Atenção para a apresentação!
Tira do bolso um papel. Ambos se sentam
depois de tudo pronto. Bebem de uma garrafinha. Depois de algum
tempo, um pergunta ao outro
- O Japão e as coisas japonesas. O mundo vai
ficar incompreensível, Jack?
- Cada vez mais, Joe.
- Antigamente ele não era...
- Não. Quanto mais antigamente, mais
compreensível ele era.
- E o que vai acontecer, Jack?
- Você já entendeu a natureza das vozes, Joe?
- Já. Entendi ontem. As vozes na nossa cabeça
não são nossas, mesmo quando elas encerram a mais cabal das
convicções. Mas então Jack, o que é que somos?
- É isso o que vai acontecer, Joe. Todos vão
perguntar o que são.
- As vozes, é ainda isso que nós somos, e a
compreensão que tive estava errada.
- Absolutamente não estava errada. Nós não
somos as vozes. Nós somos o ouvido. As vozes só falam para ouvidos.
Nós somos como que ouvidos que obrigam as vozes a falarem.
- Então é loucura.
- É ter novos ouvidos.
O conto é só isso. Encerra-se. Segue-se uma folha com um poema
Todos nós somos filhos do sol
O sol é o pai de toda criatura viva
Por isso, agora você está na estrada
Contemple a estrada
Você está de carro?
Você está a pé?
Repare na estrada, em tudo o que passa por ela
que passa por ela
A estrada
por onde todo mundo passa
Há folhas dobradas com letras de música, em 1990
nós tínhamos um conjunto com David, que nos deixou nos primeiros
dias de janeiro de 2000. De um acidente de carro. Meu único amigo,
depois do acidente de que eu estava me recuperando em 1990.
Do
acidente que aconteceu quando eu estava voltando da primeira
faculdade. Um prefeito que estava bêbado. O prefeito de São João
de Meriti. Foi detido pela polícia, e então me conduziram ao
hospital, e flaglaram com o bafômetro que ele estava dirigindo
bêbado.
Mas eu não lembro de nada. Eu estava no estágio, numa
biblioteca do centro da cidade, e depois, quando acordei, era o
hospital. Mas tudo não se concatenava, a visão era apenas uma
espécie de parede amarelada sobre os meus olhos.
Eu nunca mais vou ter nenhum outro amigo.
Todos poderão se aproximar mas nunca mais ninguém vai ser como o
David.
Livro II : Escritos
1
Que deveriam vir com o complemento de serem “secretos”. Mas que eu chamo “segredo”? A elaboração sensível.
Que deveriam vir com o complemento de serem “secretos”. Mas que eu chamo “segredo”? A elaboração sensível.
Estive lendo uns judeus. Mas como as coisas são lentas na cabeça de
um judeu! Ele realmente realiza experiências tais que as ações
chegam a se parecer realmente com um ato unidade.
Eles se levantam
cedo e depois a interação deles com alguma pessoa x é narrável.
Eles sabem o que a pessoa x pensa ao responder.
2
O modo
como isso tinha se constituído uma máquina tinha a ver com a
leitura dos livros que estavam envolvidos com não exatamente as
máquinas mas o ser sensível do pensamento, mais o fato de não
serem sensíveis os hiato que não tanto o permeavam ou constituíam
mas de que eles eram feitos a partir da descontinuidade fundamental
não exatamente deles mesmos mas dos níveis ou como se dizia platôs
de que se lançavam projetados por ...
eis o
mistério, como se fossem faculdades anímicas é
o que não me serve
agora mas antes isso bastava para que pudesse girar em torno mas há
formas de se estar adiante dos livros, tantas quantas são as formas
de não se estar atualmente tendo nada a ver com eles.
Não se
escreve pensando que se trata de livros mas mesmo as experiências, o
mesmo que o pensamento
articulando-se num nível sobre o si mesmo em fragmentos de que se
lança projetado uno.
O tempo não
está passando na janela. Eu é que mudo de paisagem? Quanta
puerilidade, quanto pesadume nessa pergunta. A esperança é a medida
do homem. Mas não a perfeição. E a isso eu chamo a “tendência
dissimulada”, esta do predador natural.
Penso em
todos os malucos da cidade que estão pensando a mesma coisa. O
caminho. Pense neles como uma rede de fios nervosos, e inclua as
categorias de pressão e distensão, força e equilíbrio, sem deixar
de lembrar do desejo, que colocará tudo em ação, solicitará os
movimentos de opção e afinal, traçará o caminho. Agora, pense no
caminho.
Trata-se de
escolher com os seus pés, e você o faz desde que acorda, saindo
sempre pelo mesmo lado. Isto é o tempo. Necessariamente uma
contagem, e só assim. Mas e então, o que é que se conta?
Baboseiras, e mandamentos bíblicos. Diga duas vezes. Respire fundo e
diga trinta e três. Eu vou avaliar a sua máquina segundo os meus
critérios de estados ótimos, você não precisa se preocupar.
O seu
tempo... O meu tempo... A medicina prova que o tempo não existe, que
ele é apenas uma categoria mental. As bolinhas de fliperama também
tem uma mística. O enlouquecimento das probabilidades que não são
mais entes de razão, e sim de movimento, choque, e trajetórias
indicadas.
Não há
tempo subjetivo, o que há é tempo contado, submetido a determinadas
regras de conversão, indicações de importância e escalas
decimétricas.
Não há nada
mais igual que uma impressão digital. O refrão dos meus marinheiros imaginários,
trocando de mão em mão a garrafa de Rum. Eis uma exemplar equação formal de
convergência em contagem, o que muda é ela em si mesma, a tal
impressão; mas de acordo com certos cálculos de perspectiva,
amplia-se ao máximo a probabilidade de informação daqueles
movimentos serem tendenciais, movimento, isso, movimento, e a técnica
de fotogramas ilegítimos. Apenas uma equação, apenas.
E o seu
caminho se complica numa bifurcação justo onde se ergue imponente o
edifício do Carandiru. São Paulo é mesmo de lascar. O percurso das
prisões. O que você acha que está acontecendo lá? Um pouco de
tempo em estado puro. Puríssimo. O céu dos cristãos, a
oficialidade da família.
Mas pelo
menos os presos sabem o que está acontecendo, certo? Eu, há muito
tempo não sei mais. O mundo não perdeu a sua consistência, foi a
materialidade que se tornou problemática.
Nada é difícil
distinguir. É uma garrafa de pepsi-cola, um menino vendendo tomate
no sinal de trânsito, o auto-falante gritando propaganda. Eu vi o
tomate no meio do padrão sonoro, o vídeo-game de todo dia. O tempo,
o que não existe, o que você só pode ganhar na medida em que está
perdendo, a terrível equação. Porque a contagem é justamente o
passado, produzido como tal, mas de tal modo que se faz como um fio
de barbante que indica o caminho percorrido, e no entanto, se nós não
estamos em lugar nenhum...
O que é que
eu faço com esse inútil fio, é o que qualquer um perguntaria, ao
se surpreender com o conjunto de um novelo embaraçado em suas mãos.
Provavelmente o jogaria fora, mas então verificaria que ele não para
de nascer, estar sendo produzido, sempre, sempre, então isto é o
tempo, qualquer um pensaria. E estaria errado. Porque o
tempo não é o seu próprio passado, ele não é a contagem, apenas
implica em uma contagem, mas se distingue perfeitamente dela, o tempo
está do outro lado do movimento, uma herança mágica do deus
músculo, do deus sangue, do deus comida.
Coisas muito
complicadas hoje em dia. E você deve sair de casa pela manhã, ou
antes, e percorrer algumas das ruas principais à procura de uma
oportunidade de mostrar o seu valor. Agora se ao invés disto, você
se meter numa cabana abandonada no meio da reserva florestal de sua
cidade e lá passar a viver, eu tenho certeza que você vai descobrir
o outro lado do movimento. Quando perceber que o pássaro é que está
dentro do seu canto.
Por que é
que você olha desse jeito, de trás para a frente, do começo para o
fim, de modo que não dá para distinguir se é você que está
olhando ou sendo olhado? Calma, não precisa ficar obcecado com
aquela cena do barbante se acumulando, vamos fazer o seguinte: mude a
imagem para longos fios luminosos, que você sente ao redor de si
como partes independentes de você. Movimente-os e sinta as
impressões que vem dali. Cores impossíveis e imagens que armazenam
um máximo de sugestão para um mínimo de definição.
De modo que
você não sabe se está vendo ou pensando. Mas tudo isso é assim
mesmo. Do outro lado do passado, quer dizer, antes dele, está o
movimento que jamais será, etc., digamos que está a consciência
ou, sejamos modernos, e falemos antes de não-consciência, ou outra
consciência.
Outro. Outra.
E acabamos aqui, neste nebuloso terreno onde é preciso um período
inteiro de conversas e acordos para este tal músculo se mover.
3
As partes que devem
parecer que estão compostas não são verdadeiramente
representáveis.
Nem nome,
nem rosto, e um corpo de pássaro que é todo esse céu. Há um outro
mundo? Bem, milhares deles. Não me espere aqui e ali. Senhor inimigo
de narrativas, a infiltração é uma arma poderosa. Ela potencializa
meu corpo enquanto o inimigo morre de fome.
É sempre
corrupção, mas nos países inflacionados falta o carimbo que
conferiria oficialidade à coisa.
E então, aproveitando-se disso,
todo uma extensa rede paralela de tráfego de carimbos é posta a
funcionar enquanto que o plano da realidade correspondente não
funciona, e assim, daria uma grande história dos absurdos, a lista
dos fatos carimbados em tal país.
Este aqui, por exemplo. Deixe ver,
um clandestino eu estava no México e depois fui para o Brasil. Daqui
para a Bolívia. Percorrendo o tamanho da minha própria vida que
está ligada em qualquer parte deste corpo. E o corpo que está
ligado em qualquer ponto de passagem, estrada, ruela, beco.
As luzes se
acendem no fim da tarde, os bares funcionáveis funcionam, as pessoas
discutem a vanguarda teatral, os jornais são lidos, mas o que
aconteceu com os controles?
E então o buraco negro se abre
novamente, não se está mais onde se estava, como se o tempo tivesse
passado, mas se ainda estamos, afinal de contas, é porque
ainda não passou de verdade. Década dos sixties, guera fria. Aquela
guerra de todo maluco, banho frio, madrugada fria, frio, fria. A
sintetização da matéria-prima. E a indústria milenar do homem.
Produção de distâncias e de saltos. Droga? Os sixties já foram o
resultado de dez anos de acumulação em cima da sintetização do
estanho, isto é, história boliviana, quando então descobriu-se que
a droga valia muito mais do que o estanho.
Mas como não
apontar a formação de uma passagem, aqui? Valia muito mais
para quem? E além do mais, a imagem da indústria permanece obscura
demais para ter utilidade. Mas para um tal fenômeno de
esclarecimento, seria preciso novamente voltar no tempo. Indo e
voltando o tempo todo, para compreender que presente?
Nesse caso a
palavra certa seria antes. No final dos anos cinquenta. Mas para
entender realmente o que aconteceu então, é preciso conhecer
geografia moderna porque sem estes conhecimentos as pessoas tendem a
confundir os nomes com as nacionalidades de tradução de nomes,
e então acontecem dois
fenômenos: por um lado cada um entende uma coisa, por outro lado
ninguém entende nada.
Não adianta ficar se perguntando se existe uma revolução
industrial itinerante ou se cada cultura produz a sua própria
revolução industrial.
Se existe uma revolução tecnológica que se
espalha como um saber que vai sendo assimilado é preciso concordar
que nesse caso haveria somente uma cultura privilegiada, um modo de
vida privilegiado, um modo de produção privilegiado porque a
própria revolução industrial é, ou implica em, um modo de
produção - tanto capitalista quanto comunista – de fundo estatal.
Os próprios conceitos de tecnologia, e produto, já são uma
problematização específica da questão proposta de modo que a sua
existência determina o seu consumo e não o contrário.
Por outro lado, se cada cultura produz a sua própria revolução
industrial, torna-se necessário perguntar porque afinal, cada país
deve produzir uma coisa destas. Qual o programa que está sendo
cumprido? Não é só que esta afirmação ignora as relações entre
os países, relações de poder que são inclusive dados no próprio
contexto da industrialização e da exploração de matéria-prima. É
que tanto ele quanto a outra alienam o problema da matéria-prima
assim como ambos se dizem em um só sentido.
Não
houve confusão alguma com os termos cultura e país. É que
justamente estes são os dados com que a geografia moderna trabalha e
sempre se estará diante de linhas de linguagem divergentes, como se
algo obrigasse a tomar necessariamente
uma coisa pela outra.
A revolução industrial é uma aparelhagem
tecnologicamente aprimorada para utilização e insumo de trabalho
escravo. O problema está nas máquinas de substituição, o desprezo
pelo próprio sentido, e a consequência lógica ou a produção de
frases equivalentes.
E é assim porque a geografia moderna trabalha com dados
necessariamente embaralhados. Porque são os dados que já supõem
sua utilização e mesmo sua confusão, ou entrelaçamento,
continuidade, de modo que para ler um dado é preciso conhecer o
posicionamento de todos os outros.
E os dados vão sendo lançados para todos os séculos até
que o resultado seja um mesmo para todos os casos.
Mas não houve uma afirmação nesse lançar, não há um
imperativo em jogo, ao contrário, neste caso o que temos é uma rede
tramada por fora que vem se precipitar sobre um local, aprisionando
tudo o que estiver por baixo de si.
Toda a operação começou pela formação de países.
Uma formação política, quer dizer, uma formação
existencial, efetivação de uma ideia que não existia, um ensaio,
mas também um sintoma.
4
Historinha dos comecinhos dos anos noventa
onde devia estar o traficante, está a polícia
onde devia estar o ladrão, está o presidente da república
onde devia estar a prostituta, está o senador
onde devia estar o formigueiro, está o edifício
onde devia estar a rua, está a "joaninha"
onde devia estar você, ficou o seu dinheiro.
5
"Joaninha" é como se chamavam antigamente aos carros de patrulha da polícia - porque eles eram pequenos fuscas.
O caso é que estou cansada de toda essa conversa sobre isto e
aquilo, o que eles chamam arte, figuração ou não, tudo se resume a
alguns encontros entre determinadas pessoas em determinados lugares,
e agora no dia em que uma pessoa sai fazendo alguma coisa e não
encontra ninguém, também ninguém quer ver o que ela faz.
Se é bom
ou não bom é um tema para tudo e um tema é sempre uma coisa
irritante. Honestidade? Dos sentidos? Mas eles são intrinsecamente
desonestos porque a própria percepção não suportaria essa prova.
Mas fala-se em artes plásticas, em artes visuais, e em objetos e em
corpo.
Fazem de uma discussão de arte teorias da revolução
industrial, e isso é tudo o que temos em nosso país, pró ou
contra.
Qual a diferença entre um vagabundo e muitos vagabundos?
Depois os textos serão jogados no lixo, quando a pessoa
morrer. Ou então a revolução industrial chegará na sua fase
gloriosa, quando tiverem abolido essa excrecência, o papel, e tudo
será voz e visor.
Acabou o rum e acabou o dinheiro. A casa não é um ovo sem
ser também um buraco, prisão, paredes e tecnologia. Não se pode
viver na esquina. Vista negra, nós estamos aqui finalmente, sempre
voltaremos para cá de uma forma ou de outra e aqui faz calor, eu
preciso passar a vida debaixo d'água, então eu abdico desta coisa
insuportável e obrigatória chamada casa e vivo somente num
banheiro, não preciso de mais nada, e quando os idiotas vierem me
falar sobre os aspectos inalienáveis do sistema e da participação
nos lucros eu não ouvirei porque o barulho do chuveiro abafa tudo o
mais.
O
desmoronamento e o século XI como campo de confluência, desastre
propriamente estelar, e depois a empresa, o século XVIII, XIX, a
clandestinidade e a produção de um outro modo de viver e de ver.
É
a linha, a passagem, o futuro, e estará sempre além do que fazemos
agora, como o movimento é diverso do ato.
O próximo bar é o
daquela praça com um canto esquerdo e eu terei dinheiro,
e é preciso estar lá as sete e meia com suas pernas e braços
funcionando, e a percepção proprioceptiva acoplada ao visor
exteroceptivo, e necessariamente com o sentido assegurado e a
importância assegurada, e a vida compreendida, o céu sem nuvens e
alguma pedra de açúcar para carregar. A visão total. Tudo de uma
vez. E contar suas experiências e rir dos pseudo-artistas de
plástico. Os seres de pele fina que somos, muy irritadiços, que não
suportam o atrito.
As cenas básicas transitam por projetos de memória sendo
arquivados. Trancando-se nas palavras trôpegas que se tornam
demasiado profusas. (…)
A memória é um sistema de precipitação, e o abismo produz o
eco, não o contrário, como todo mundo esquece.
Estou querendo uma consciência
limpa. Ser uma consciência limpa? Ser.
6
A história recua muito tempo. Invasão solar dos deuses fálicos – sedentários. Mas o sol é esse que fica hesitando por entre as nuvens e depois submerge no cinza. O sol se oculta. A bruxaria derivou à clandestinidade desde que a linguagem convergiu em rede de filamentos e articulações quebradas e semi-desjuntas ao sol.
Estou querendo libertar as palavras. Não sei de que
elas não estão livres. Ser?
De modo que o mito de Thoth é uma figura esquizofrênica ou oligofrênica dependendo do estágio histórico e do caso individual. O escritor - de verdade. Porque liberdade para a gente é um bom nome para código civil, penal, ou simplesmente estatuinte. Ou seja, é um troço quadrado sob todos os aspectos. (..._
mas
mesmo assim o escritor aprende em primeiro lugar a erguer suas
paredes de silêncio
que às vezes são leves _...)
2
Eu realmente não estou escrevendo uma cena coletiva. O
fato disto serem fragmentos pesa contra mim. É do mesmo modo que um
homem havia se determinado a cingir-se aos seus hábitos, seguindo
Proust ou repetindo uma história de sua vida aprendida muito tempo
antes do seu pai nascer, e então ele deveria sair no encalço
daquele nascimento a fim de que o explicassem qual era o início da
história em que era ele a parte depois do meio para o fim. Que não
obstante era uma continuação em outra parte, a dele mesmo e assim
por diante mas isso o ilimitava e o fragmento que ele era devia
mentir para si mesmo através da história dos hábitos que se
tratava de nada mais que uma continuidade, a good continuation, e ele
estava desnudando isso, essa mentira.
Do outro lado do Atlântico, não nesse, portanto nenhuma
continuidade geográfica mas a mesmíssima coisa por trás do muro
feito do mesmíssimo material de concreto por uns operários que para
isso ganharam o mesmíssimo salário de fome a partir da mesmíssima
máquina de gerar miséria inventada daquele lado e para cá
estatuída por meio de que os nascimentos ora transportados via
marítima pioneiramente eram mais que adstratos, formavam eles mesmos
um extrato, o único a vigorar a partir de que esses nascimentos
tinham sido a poder das armas feitas com a mesmíssima pólvora e
intenção de matar
Do lado de cá. Assim, que adianta pensar que se trata
de imigrantes minorias, se todos são imigrantes, muitos ou poucos,
de uns ou de outras procedências, contanto que sejam imigrantes não
aqui nascidos, estes esquecidos, se antes nascidos, das armas, digo ...
Os fragmentos não reproduzem retalhos de micro-nacionalidades, o
que se escreve a partir de um eu é o problema desse eu, não sua
grandeza.
Os pesos e as preponderância das frases poderiam ou pareciam
falhar nalgum ponto mas era isso o que tentávamos produzir, o
problema, ao redor de que haveria uma aparência
É realmente um horror que tenham começado a acusar ou a
bajular pessoas que escreviam numa parte da mesma máquina separada
por um oceano, acusá-las do fato de que escreviam com um mim mas
impossibilitadas de seu eu, porquanto escreviam coletivamente, como
se
mas depois pensaram se isso não seria melhor e passaram a
instalar rádio-escutas e inventaram máquinas que transformavam
incontinente os conteúdos em coisas coletivas, máquinas espionadas,
como tudo o mais se tornou universalmente, como tudo sempre era desde
a lógica do revólver, etc.
É realmente um horror que tenham começado...
7
O crítico estava interessado no modo como as frases se
estiravam ou enlouqueciam. Ele havia perpassado imperceptivelmente da
sua contraditória teoria do mim fragmentário coletivamente integrado
para o verdadeiro plano do que estava acontecendo que era o signo.
Ele não percebia que havia transitado.
Escrevo:
Ampersend, alguma coisa mais
Jiva & Paramatma
Os sentidos se precipitam
em direção à escrita
como a flor na folha franca
participa da forma
como a luz se Retoma em Foco
absoluta e branca
Brhama em Refulgência
no ritmo exato das estrelas
pulsando o som inverso & certo
Tive que voltar ao hospital, alguns dias depois do acidente. Foi muito grave. Fiquei internada quase uma semana. Mas me recuperei, só que não inteiramente a memória. Assim como um homem num filme que eu assisti. Ele sobreviveu de um acidente de avião, e então começou a se comportar de um modo muito, muito louco. Nada era limite para ele. Achava que podia voar se quisesse. A gente fica mesmo assim. A coisa não vale NADA. É uma bobeira total as seriedades cotidianas das pessoas além do prato de comida, da roupa do corpo e do abrigo para dormir.
Agora a reclusão. Tantos anos depois. Não percebem que não me importa o risco de eles verem que eu fujo por entre as entrelinhas e percorro bares porque para isso devia eu antes me importar com o fato de serem bares...
Agora é apenas um sistema, de modo que as mensagens
são fluxos energéticos que se deslocam acoplados a insistências
sistêmicas generalizadas desde os programas do Sistema em geral
designado mundo político público sociedade história estado isto
trilhas
percorrendo as trilhas como impulsos podemos
escolher mas evitar bifurcações
eu copio os antigos poemas místicos que agora estão
reconvertidos em mensagens sistêmicas
posto
que não eram escritos em computadores eram de outro mundo
portanto
o misticismo segundo wittgenstein é
tudo o que ultrapassa a atribuição da linguagem na linguagem, mas
hoje sabemos que toda atribuição da linguagem é uma trilha
sistêmica portanto o místico é tudo o que percorre as trilhas
e somente isso
O destino nos misturou aqui com essa espécie de
pessoas. A nós, como para todo mundo, nunca veio o melhor nem o
pior.
Nem por isso pede-se da skepsis a oportunidade.
A populaça de g... – agrupada em torno de um
punhado de ricaços ignorantes, trapaceiros mas muito burros –
costumava pensar do jeito que se segue. Como todos os seres humanos
são mortais, um assassino não comete um crime. Posto que o que ele
faz no presente, seria feito de todo modo um dia no futuro sem ser
por ele, mas pela própria natureza. Assim, quanto mais a vítima for
rica, menos o assassino é assimilável ao destino, por assim dizer,
antecipado – posto que o destino de uma pessoa que vive com muita
segurança, comida e remédios, não é prontamente associável à
mortalidade do ser humano. Mas quanto mais a vítima está por sua
condição física ou social, exposta à insegurança do já agora
universal destino, tanto menos o assassino é algo diferenciável
deste. Capíce?
Por isso, o único meio de produzir em g...
algum progresso social, é instituir a cadeira elétrica para todo
171, assassino ou prejudicador da pessoa no gozo do que a lei
prescreve em termos de sua inviolabilidade.
Anexo:
Estou firmemente
disposta a Esquecer Tudo. O filhinho da putinha do jovem, etc. Tudo.
Esquecimento em atividade. Botão Azul.
Vou creditar
todos os atos calhordas a um Suborno a que foram submetidos os
combatentes destas fileiras pelo grande Subornador das fileiras de
lá. Nem vou exigir a perna de carneiro que se costuma exigir nessas
ocasiões, pro sacrifício. Não ek-ezigirei Nada.Não porque eu
tenha qualquer fé. Não porque eu tenha qualquer Afeto. Não Sobrou
Nada. Apenas porque este sentimento de justiça Seria ainda um afeto
por Eles.
Nada.
Botão
Azul pressed.
Com apenas mais um poema:
L'Erreur, selon qui?
La
societé decrepit
Surgit
Avec un trés noveaux
Visage
pour
qui vouz defáire le visage
c'est necessaire
une jambe de Brebis
eis
porque as pernas de carneiro andam faltantes no mercado
eles andam pondo os carneiros nos lugares dos cachorros
para fingir que são bichos de estimação
quanto aos latidos
improvisaram caixas de ressonância
assim designadas Televisão
E...
Put the
Sense Out
Carreguem para Fora daqui a Metafísica
em
atenção ao Senhor Pessoa
Se
chamarem o Hospício
Creditem tudo aos auspícios e à responsabilidade do Senhor Pessoa
Ele é respeitável e conta com o favor das pessoas benevolentes
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